segunda-feira, 16 de setembro de 2013

BUJARU – entre quilombolas, engenhos e carnavais

As amazônias do Brasil são várias. Vasto mundo de gentes e conhecimentos milenares de matrizes indígena e negra. Gentes que serpenteiam entre furos, igarapés e rios, a fundar e refundar sons, batuques, lendas, histórias, saberes, sabores e trilhas. No Pará, segundo estado em extensão territorial do país, uma diversidade de povos e conhecimentos ainda flutua, em certa medida, oculta das praças formais do conhecimento, por ignorância ou preconceito.
Em Bujaru (boca da cobra grande), cidade da região metropolitana de Belém, nordeste paraense ou região Guajarina, aproximadamente 73 quilômetros da capital, é um exemplo. Curuperé, Cravo, João, Pirapoca  e Cravo alguns dos igarapés do rio Bujaru, um dos afluente do Guamá., vizinho do rio Capim A Amazônia é um mundo de rios. Rios de águas e gentes. No mundo de águas da cidade, o rio Guamá impera.
O mundo de águas do Guamá é um mundo de gentes, 25 mil pessoas é a população estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), boa parte de origem negra e nordestina. A PA 140 é a principal via de acesso ao município, que mantém uma relação muito próxima com Concórdia do Pará e Santa Isabel, cidades vizinhas. O rio Guamá separa Santa Isabel de Bujaru.

A travessia de balsa dura menos de trinta minutos. No cais o comércio de bebidas, lanche e café socorrem os viajantes, que possuem a opção de dois modestos hotéis. Peixe seco e fresco são negociados a partir das seis da manhã na beira do rio, quando as portas do comércio abrem. Rabetas e lanchas movimentam o trapiche da cidade, a deslocar os estudantes, moradores e comerciantes. Pescadores em canoas sem motor arriscam apanhar uma gurijuba, pescada ou dourada. Açaizais sacodem ao vento em quintais das casas, algumas de madeira. Os quintais estão repletos de árvores frutíferas, como mangueira, jambo e bacaba.
 
Vicente Salles conta que no vale do rio Guamá predominou no século XVIII e XIX  uma economia de monocultura de cana de açúcar, cacau e algodão, além da criação de gado e  engenhos, baseada em mão de obra escrava. A cana de açúcar predominou nos rios Acará, Capim, Mojú, Igarapé Miri, enquanto em Bujaru a cultura do cacau tinha a hegemonia. É possível ainda hoje encontrar estruturas físicas dos antigos engenhos em inúmeras localidades em Bujaru, a exemplo de: Bom Intento, Guajará Mirim, Conceição, Engenhoca, Mocajuba e São Judas.
Terras de Sesmarias e de posseiros conformaram a feição territorial de Bujaru no período de 1724 a 1824. Portugueses provenientes dos Açores eram os principais interessados nas terras à beira dos rios. A decadência da economia escravocrata inicia nos anos finais do século XIX, quando as fugas ganham volume. No século XVIII, período pombalino, os escravos chegaram a representar 54% da população, conforme pesquisa da professora Edna Castro. A partir das fugas organizaram mocambos na região, onde cultivavam a agricultura em pequena escala, com ênfase na produção de mandioca e hortaliças nas vazantes dos rios. Nos dias atuais a pressão sobre as terras tem sido exercida pela monocultura do dendê, ativada pela empresa BioVale, com incentivos federais.  
Divino Espírito Santo, Carimbó, Cordões de Pássaros e Boi Bumba são algumas das manifestações oriundas das localidades rurais, assim como as lendas. Um monte delas, como a dos “Pretinhos da Pororoca”. Conforme moradores, três pretinhos seriam os responsáveis pela onda avassaladora. Sobre o mesmo assunto é recorrente lembrar que o Padre Basílio Bossio, da Paróquia de São Joaquim teria levantado o braço e jogado água benta no rio da comunidade de Icurapá, para impedir a pororoca. Desde então o fenômeno nunca mais foi o mesmo.  
Além do atrativo de origem histórica e cultural, o local configura-se uma possibilidade de investimento em turismo, onde podem ser incentivadas, entre outras práticas, as trilhas ecológicas e a canoagem. Conforme informações dos discentes que fizeram parte do curso da EGPA, pode-se afirmar que no mapa das artes bujaruense há o predomínio de manifestações de origem cristã, a exemplo da celebração do santo padroeiro, São Joaquim, Círio, celebrado a cada primeiro domingo de dezembro, Natal e a Marcha da Fé, em julho. No caso de São Joaquim ocorre uma grande mobilização no mês de agosto, que tem como desdobramentos a realização de bingos, leilões, auto e folias.
A partir do universo rural ocorrem celebrações em inúmeras comunidades e em escolas da sede do município. Neste segmento, vários festivais são realizados, entre eles: o da mandioca (Escola Izolina Reis), maracujá (Escola Maria José), tucupi (Escola Cantinho do Saber) e coco (escola don Angêlo Frosi) e do açaí (Igreja Jericó- Ipixuna). É possível sinalizar que ocorre uma convergência em diferentes dimensões, onde comungam homem, natureza e cultura. Neste cenário cultural há o envolvimento de uma gama de instituições do poder público municipal e estadual, entres as quais é possível indicar: as secretarias de educação, cultura e meio ambiente; e a Empresa de Assistência Técnica Rural (Emater), o comércio da localidade e pessoas simpáticas às manifestações.
Pássaros e Boi Bumbá existem desde o século passado no município de Bujaru. Bruno dos Santos Batista, conhecido como mestre Neco, é cantador e poeta de boi bumbá, cordões de pássaros e sambas. Ele explica que desde os anos 1960 há registro do folguedo em Bujaru. O mestre conta que Brilha Noite foi o primeiro boi. Além do mestre Neco ajudaram a animar a brincadeira, Manoel Roque, Joaquim Gomes da Silva (Marreta).
Por conta de alterações das pessoas na direção da brincadeira, ocorreu a mudança de nome de Brilha Noite para Estrela D´alva. Conforme informações dos participantes da oficina, as manifestações não existem desde ano passado. Neco rememora que a maioria das manifestações possui como seio o Bairro da Palha, estigmatizado pelo fato de ser um bairro de periferia, habitado por pessoas negras e carentes. Palha é um dos primeiros bairros da cidade.  
Mestre Neco recorda que uma das canções da brincadeira conta o seguinte:
 
Menina varre o terreiro
Mestre Neco –

Menina varre o terreiro
Que o Brilha Noite Chegou
Jogando terra no lombo
Sem achar pastorador
 
Já a poesia do Estrela D´alva, assinada por Marreta, que trata da despedida do boi, proclama:
Canção do Estrela D´alva
Joaquim Gomes (Marreta)
 
Adeus morena
Peço que não vá chorar
Que o Estrela D´alva já vai se arretirar
Se eu não morrer neste grande bombardeio
Para o ano
Nós há de voltar
 
A professora Jacirene do Socorro Silva dos Santos, filha do artista Marreta, explica que a maioria das canções das brincadeiras era assinada pelo pai, Maria Pedrina (Peda), Neco e Carlos Batista (Seu Carroça), pai do mestre Neco.   
Peda assina a seguinte música do Estrela D´alva:
O nosso boi não tem ouro na madeira
Mas nós temos dinheiro que o nosso prefeito arrumou
Com o dinheiro eu compra prata enfeito ele
E ainda compro alguma coisa de valor
Olha o chapéu dos bailantes com fitas avoando
As sandálias nas candeias se for brilhantes
Alumeia
 
O Bairro da Palha é uma espécie de centro irradiador de cultura no município. A professora Lúcia Baena narra que o logradouro abriga artistas plásticos, compositores, cantores, carpinteiros, estilistas, costureiras, bordadeiras, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, carimbós, umbanda e artesões.  
Os cordões de pássaros tiveram o mesmo destino dos bumbás. Os (as) alunos (as) contam que Bacurau, Surucuá e Japiim existiram até uns anos atrás. Todos tocados por mulheres. Os cordões existem somente no Pará. É um folguedo típico da Amazônia. A professora Maria Irani Ferreira Serra era a pessoa responsável pelo Surucuá; Margarida Palheta animou o pássaro Japiim, enquanto a também professora Benedita Luz colocava nas ruas o Bacurau. No caso do carimbó, o grupo Canto do Guará foi o mais citado, e encontra-se em plena atividade. Ele sempre é convidado para participar de feira agropecuária no município de Castanhal e de atividades no próprio município.  
Além do mestre Neco, completam a constelação de artistas populares de Bujaru Ambrosio Correa, que executava Flauta, Antonio Carlos Bezerra (Tonhão) violonista e Zé Holanda, que toca cavaquinho. Os experimentados artistas além de ocuparem lugar de protagonismo na cultura popular, foram formadores de jovens músicos, como no caso do Zé Holanda. Raimundo Soares e Haroldo Reis são os cantores mais conhecidos de Bujaru. Reis é popular como cantor de bailes da saudade em Belém. Hugo Reis (Bigasbalde), irmão de Haroldo, integra o coletivo dos cantores populares. Nativos é uma banda que existe há uns três anos. O grupo executa uma variedade de ritmos.     
Na literatura existem as irmãs poetisas Lindarlene e Lindadarle Farias. Além de poesia Lindalerne é conhecida por compor sambas para o bloco carnavalesco Caldeirão da Alegria, que existe desde a década de 1990. As professoras Oda Bernardo, Benedita Luz e Iracema Heitor assinam o hino de Bujaru.
Cultura em Bujaru - Dias de hoje – Os blocos de sujo do carnaval não existem mais. Os discentes do curso avaliam que a falta de apoio público colaborou para a extinção dos mesmos. Nas manifestações havia batucada, letras e o canto, e o abadá ainda não predominava na paisagem. No lugar dos antigos blocos surgiram: Caldeirão, Vermelhinho e Palha Não Há. A participação é permitida mediante a aquisição do abadá.  Um trio elétrico com músicos garante o arrastão. As composições de autores locais são cantadas no trio. Os participantes da oficina esclarecem que os blocos de carnaval surgiram a partir de antigas escolas de samba.   
Na construção do Mapa das Artes de Bujaru a quadra junina é outro expoente. As quadrilhas configuram a principal atração, despontam neste campo: Forró da Alegria, Maluquinha e o Cheiro do Pará.
As irmandades religiosas estão expressas a partir das agremiações do Divino Espírito Santo e Santíssima Trindade, ambas da comunidade de Ponta de Terra; São Sebastião, oriunda de Bacuri. Na primeira sede do município, Santana, ocorre uma série de festividades no final de julho. A comunidade abriga a primeira igreja do município. E em setembro festeja o açaí.
Bom Intento e Quizomba são as expressões locais nas artes cênicas e fazem referência à cultura africana. O Bom Intento é uma localidade remanescente de quilombolas. Uma antiga fazenda de cana de açúcar. O grupo de teatro que existe há mais de duas décadas, e sofre dificuldades para a garantia de sua manutenção. O Quizomba é fruto de uma dissidência do Bom Intento. Raimundo Chermont é o principal animador do teatro do Bom Intento, já Rogério Lino é do Quizomba. Chermont também é artista plástico.  
A juventude evangélica de diversos segmentos organizou o Hip Hop Unidade Cristã. A atividade engatinha os primeiros passos. Os participantes da municipalização da EGPA informam que a cidade abrigou uma oficina sobre o assunto organizada pelo IAP (Instituto de Artes do Pará).   
No artesanato despontam a arte em cipó (timbuaçu, guarumã).  Abano, tipiti, peneiras, paneiros, vassouras, rasa de açaí (cesta), tupé (espécie de tapete) são alguns produtos de origem das comunidades ribeirinhas.
Há doze anos o Torneio Náutico e Trilha Ecológica, antigo torneio de jet-ski e canoagem é realizado pela Ação Social da prefeitura. O evento é realizado no cais de arrimo, em frente à cidade. E, ainda, a primeira Trilha Ecológica será realizada na comunidade Bom Intento.
O município possui biblioteca pública. Na comunicação e entretenimento o Itamarati foi a primeira aparelhagem de som, e existe há pelo menos cinquenta anos. Dulcídio Geraldo de Sousa foi o empreendedor. Nos dias atuais a aparelhagem tornou-se Itamarati Publicidade, e tem como proprietário Ducival Sampaio, que herdou a atividade do pai, Sousa. A aparelhagem ganhou o nome DuckSom. Outro recurso usado na comunicação é o carro de som, além de faixas e outdoor.
Não há teatro em Bujaru. As praças são utilizadas para eventos, como o Pará Paidégua, uma espécie de feira cultural, organizada pela Secretaria de Cultura. Grupos evangélicos  e de teatro também costumam usar o espaço. A Praça das Bandeiras é a principal da cidade. Trata-se do antigo cemitério. 
Benzedeiras – Gertrudes Macedo, Iolanda, Tibúrcio, Dona Dudu (falecida).  Criança com quebranto mofina, sapinho na boca, mal olhado. Terço, arruda molhada na água, catinga de mulata, hortelãzinho, chá de erva doce, reza. Ainda hoje é comum as mães levarem as crianças para serem benzidas.    
Artistas plásticos – Raimundo Chermont, Rosivan Baena, Richard Farias, Gileno Farias e Ítalo Holanda são alguns artistas da cidade na cena de artes plásticas.  
Parteiras – Dona Zezé (falecida), Dona Clara, Dona Coló (falecida), Creuza Santos, Dona Antonia Cordeiro, Manolita Gomes, Maria Acionila, Eva Belém, Faustina Abreu, Bertolina Alves. Em todo o município são perto de quarenta mulheres que realizam o parto assistido.
Igarapés - Mariahi, ramal do km 25, Igarapé no km 12, Melou Lavou, na comunidade castanheiro, Bom Intento, São José (Buraco Fundo), na cidade, Pandeiro, no km 20 formam a constelação de igarapés que movimentam o fim de semana em Bujaru. 
Considerações -
Em síntese, é possível sinalizar que o município de Bujaru abriga uma potencialidade de apelo cultural e ambiental ainda pouco explorada, e que necessita de uma política pública de valorização e profissionalização dos diversos grupos que integram o cenário cultural do município, e que tal política possa colaborar tanto para provocar um processo de reconhecimento e valorização; quanto para a melhoria da qualidade das populações, e pessoas que protagonizam grupos e iniciativas nos dois setores (públicos e privados).
Os trabalhos realizados em grupo indicam que as principais manifestações do município são: Festa de São Joaquim, Marcha para Jesus, celebrada em julho; Carnaval, Festa do Produtor Rural e os  festivais Culturais Comunitários, que ocorrem durante todo o ano.
Nas diversas atividades visualiza-se como apoiadores a prefeitura, comércio e pessoas físicas, a partir de recursos monetários, gasolina, condução, deslocamento para a capital e  alimentação.  
Uma possibilidade para se otimizar as potencialidades do campo de cultura, pode ser a construção de um núcleo de cultura, que dialogue com os acúmulos já existentes e registrados nas conferências municipais de cultura.  Os trabalhos em sala indicaram algumas pistas, que seguem abaixo.    
Núcleo de Cultura
Composição – secretaria municipal de cultura e outras afins, como a de educação e a secretaria de meio ambiente, artistas e mestres da cultura popular, quadrilhas juninas, blocos de carnaval, grupos de teatro, grupos de dança, etc.  
Apresentação - O núcleo de cultura de Bujaru a partir do Mapa das Artes tem por finalidade reunir, organizar e orientar as diversas manifestações culturais no município de Bujaru.  
Missão – Fomentar a cultura no município de Bujaru.
Objetivos
Geral – Fomentar a cultura em Bujaru
Específicos
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Qualificação para captação de recursos
 
Prioridades e metas –
i)                    Qualificação técnica e artística;
ii)                  Montar uma equipe para captação de recursos, que realizar um levantamento sobre os principais editais nacionais e estaduais do setor da cultura;
iii)                Promover uma parceria com instituições da União e Estado (Minc, IAP, Centur).


[1] O presente documento resulta de uma oficina sobre gestão cultural promovida pela politica de municipalização da Escola de Governo do Pará (EGPA) entre 09 a 14 de setembro no município de Bujaru. A escola estadual Don Mário Miranda Vilas Boas abrigou o evento, coordenado pelo assessor da EGPA, Cleodon Gondim. Relação dos discentes: Anne do Socorro Santos, Bruno Batista (Mestre Neco), Elizabeth Valadares, Francyanne Maciel Chaves, Graça Trindade do Carmo, Joel Marques, Lucilene Corrêa Natividade, Marcilene Campos  Piedade, Maria Benedita de Farias, Maria de Lourdes Silva Souza, Maria do Socorro Reis, Maria Lenilda Fonseca, Raimunda Nonata de Abreu, Renata Alves, Rosalina Faro Lobessa, Thatiana Santos da Silva, Jacirene Silva Santos, João Evangelista Cunha, Lucimar Castro Correa, Maria Lúcia Baena, Marinalda Gomes Meneses, Raimunda Ribeiro Souza, Raimundo Chermotn Ferreira, Renata Oliveira Alves, Rosilene do Socorro Cunha, Silvana da Silva Cruz, Tatiani Conceição Maciel, Wanderléia do Socorro de Araújo, Zena Lima dos Santos.       
 

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

Quilombos – PM aterroriza comunidade no Marajó e atira em moradores

Polícias militares e o capanga da fazenda São Joaquim, conhecido como Toca Boca Podre, atentaram contra a vida de quilombolas da comunidade Gurupá, no município de Cachoeira do Arari, no arquipélago do Marajó.
A tocaia foi comandada pelo capital Raulim e pelo menos cinco militares no último dia 10, por volta de meio dia, denuncia a Associação de Quilombolas do Rio Gurupá – ARQUIG.

Após insultar os remanescentes de quilombo de “filhos da puta”, quando os mesmos trafegavam no rio Gurupá, Raulim disparou contra Edinelson Corrêa Amador e Josiel Corrêa Amador, Gilberto Correa Amador, Alexandre Moraes Alexandrino e Jeferson Amador da Silva.

As balas detonaram com o motor da embarcação. O prejuízo estimado é de R$600,00. Os quilombolas foram socorridos por uma embarcação que se dirigia para a capital do estado, após a tentativa frustrada dos PM´s em afundar as embarcações.
 
Os quilombolas trafegavam em duas rabetas. A intenção dos militares era a detenção dos extrativistas que coletavam açaí.  
 
A coerção da PM e capangas de fazendas da região tem sido rotineira contra os quilombolas da comunidade de Gurupá. No mês passado, adolescentes foram detidos quando coletavam açaí.
 
No mesmo mês o ativista Lalor foi assassinado em Belém, quando participaria de um encontro em defesa das comunidades. A região experimenta ainda uma expansão da monocultura de arroz, que tende a pressionas territórios ancestrais.

A tensão entre fazendeiros da região e quilombolas é antiga. O grupo que sofreu o atentado teme em sofrer mais represálias da PM e de capangas. Por isso a ARQUIG encaminhou denúncia sobre os fatos para o Ministério Público Federal (MPF).  
 

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Viagem a um quilombo no PA - Diário de Lilian Campelo

Lilian Campelo
 
Ao ler ou ouvir histórias de jornalistas que navegavam os rios da Amazônia ou se aventuravam pelas estradas empoeiradas e esburacas me transportava para o imaginário daquelas narrativas.
 
Ao sonhar acordada tentava criar cenas de como eu me comportaria em tal situação. Ter o tal feeling para saber se uma história poderia render uma boa matéria, criar fontes num local onde você não é conhecido tendo em mãos apenas o papel e a caneta.
 
Nesses lugares esquecidos é que eu queria mergulhar.
 
Moju. 13hs. Chego à rodoviária lotada e de lá vejo o rio que batiza a cidade. A alça viária arqueia o rio das cobras. Foi ela que apagou o tempo da travessia feita pelos barcos.
 
Ao descer do ônibus percebo que alguns olhares me acompanham. Queria passar despercebida por esses olhares. Resolvo então sentar. Ficar quieta. Observo as pessoas em suas esperas por alguma coisa que as deixam com o olhar vago e longe. Talvez seja o calor que as deixem assim. No terminal havia dois ventiladores de teto. Dava pra contar quantas vezes as paletas giravam. O sol estava escaldante.
 
Perdi o ônibus de 11horas que leva para o território de Jambuaçu. Vou a um dos guichês e pergunto a moça que muito educada responde. “Tá vendo a placa aqui em cima? Aqui é só ônibus da empresa ‘tal’ que vai pra Belém”.
 
Ônibus para Jambuaçu só tem um horário, depois disso não tem mais transporte. Encosto próximo da parada em que os ônibus estacionam e pergunto para um rapaz se ele sabe de outro ônibus para Jambuaçu: Somente às 15hs, pode ser que venha. E como faz pra saber se vem ou não? Só quando chegar o horário.
 
O relógio aponta ainda 13h35min, não tenho tanto tempo assim, sábado preciso voltar pra Belém.
Vou ao um mercadinho que fica atrás da rodoviária. Compro crédito para o celular. Nesse ínterim pergunto ao dono se ele conhece algum mototáxi de confiança que possa me levar a Jambuaçu. “É moça faz bem perguntar sim. Vou chamar um que leva minha esposa quando ela precisa sair”.
 
Chega o mototaxista, Sedex. Acerto com ele o valor. Peço o capacete, mas ele só tinha um e me enrola dizendo que é bem ali e que não há perigo não. Esse bem ali era 25 km de estrada, do centro até o território.
 
O descaso com as comunidades que integram o território começam pela rodovia quilombola. Em época de chuva a estrada vira atoleiro. No verão é poeira e os buracos ficam a mostra. Em determinado percurso sou avisada pelo Sedex que a rodovia tinha terminado e que começava o ramal. Pra mim não havia nenhuma diferença, mato de um a lado a outro cortado pelas linhas de transmissão de energia.
 
Resolvo tirar a câmera fotográfica para registrar as condições da estrada, mas antes informo ao Sedex que estou indo ao território para fazer uma reportagem – como se isso fosse resolver alguma coisa, mas de qualquer modo me senti segura para tirar a câmera– Pergunto se há algum perigo ali. “Não tem não, tá tranquilo” e ele começa a me ajudar no registro de imagens, vai parando onde há as verdadeiras crateras ao longo do ramal. Sedex honra o apelido que tem. Dirigi pelos buracos sem pena da moto. Vez e outra dou uma batida no ombro dele, só para relembra-lo que eu estava ali.
 
Chego à Casa Familiar Rural. Lá estava sendo realizado um encontro de mulheres quilombolas de Jambuaçu. Mesmo empoeirada e cansada estampo meu sorriso. Quem me acolhe é Maria de Nazaré Silva Rodrigues, presidente da Associação Quilombola de Santa Maria do Traquateua.
 
Ainda menina Nazaré lembra quando a família teve a casa queimada por posseiros na década de 80.
Naquela época a empresa Reasa tinha se instalado na região para expandir a monocultura do dendê utilizando grileiros e jagunços para expulsar as famílias de suas terras.
 
Depois de um descaso ainda naquele dia vou atrás das entrevistas. Nazaré já não estava mais no encontro, tinha ido embora. Resolvo ir a sua comunidade. Foi uma longa entrevista com ela, dona Sabá (mãe) e a tia, a dona Florência. Três mulheres que testemunharam a violência no campo em períodos diferentes na região.
 
Já é noite. Volto pra Casa Familiar Rural. Durante o jantar conheço o presidente da Banbaê(Associação Quilombola de Jambuaçu), Ricardo Tavares. Homem franzino de olhar desconfiado. Por sinal a desconfiança me seguiu durante a minha estadia lá. A todo o momento eles me perguntavam pra qual jornal eu trabalhava, ou em outros afirmavam. “É pesquisa que você tá fazendo?”. Pra saber se eu não iria cair em contradição.
 
Naquela mesma noite entrevistei o presidente e a Waldirene Castro, coordenadora pedagógica naescola. No sábado de manhã no alojamento acordo com a conversa das mulheres.
- E ai Wal, ela te sugou né.
- Eu falei tudo, mas ainda tô com um pé atrás.
 
Eu compreendia essa ressalva. A Vale chegou a infiltrar pessoas ligadas a empresa para saber quais as ações que o movimento iria tomar contra ela.
 
Ao término daquele sábado ainda com resquícios da sexta exaustiva volto pra Moju no mesmo ônibus que Wal. Ela também aparenta cansaço devido o encontro, mas ainda tem ânimo na voz e vai me apresentado as comunidades do território ao longo da viagem e conta que antes as relações entre as pessoas eram outras. “Havia mutirões pra ajudar na comunidade, as pessoas se conheciam, havia mais confiança e solidariedade”.
 
O ônibus chega à comunidade dela, me despeço com um abraço e agradeço a acolhida. O tempo que durou aquela a viagem fez com que Wal retornasse ao passado e extraísse dele a confiança que ficou lá longe, nos tempos em que se atravessava o rio de barco. Ela contou saudosista o que foi o território de Jambuaçu, creio que naquele instante ela tenha tirado aquele pé detrás dela.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Raimundinho - seis décadas de estradas, rios e lutas


Hercúleas são as grandezas amazônicas, rios, biodiversidade, gentes, conhecimento, alegrias e tristezas. E como tem gentes no vasto universo Amazônico. Anônimos, invisibilizados, arrancados da horizontalidade do cotidiano por conta de tragédias, como os massacres, ou algum feito raro, fora do comum, tal o do atleta especial Alan Fonteles.

Tem gentes na Amazônia. Um montão. Um mundo de gentes a contrariar a correnteza do rio da brutalidade do capital e do autoritarismo do Estado. O par impõe uma lógica baseada em mega projetos para a região, homogeneíza e expropria as populações nativas, devasta a floresta, detona os rios, barrancos, e mais que tudo, vidas, histórias e conhecimentos ancestrais.

No vasto mundo das terras dos Carajás tem um mundo de gentes teimosa. Uma pororoca de Raimundos, a cruzar o Tocantins, o Araguaia e Itacaiúnas. Nestes dias um deles soma seis décadas de trecho. O bravo nordestino tem o sobrenome Gomes da Cruz Neto, entre os pares tratado somente de Raimundinho.

A baiana Angelina é a corda da caçamba do piauiense Raimundinho. Thiago e João são os filhos biológicos. E sei lá quantos outros adotivos passaram pela asa do casal. Vítor é o neto. Raimundinho tem um monte de irmão. Conta com pai e mãe ainda hoje. Na casa do agrônomo e sociólogo nunca falta abrigo a um trabalhador rural ou urbano, um ativista ou dirigente popular. Algum pesquisador ou jornalista. Ainda que seja de meia pataca, como eu.  

Tantas vezes ali fiz pouso, filei boia e pinga, falei bobagens, ouvi canções, desafinei o canto do trovador Peixinho, mexi com moças... O “comandante”, como tratam os mais jovens, comporta no corpo franzino um grande coração.  Ao seu jeito externaliza generosidade aos que ali buscam uma ajuda para tentar compreender a complexa região de Carajás, ou com quem cruza pelos bares ou encontros e desencontros da vida. 

O educador de cabelo black é do tempo da Guerrilha do Araguaia. Tem história para contar. Foi de partido clandestino nos tempos da ditadura. Pós milicos, ajudou a organizar sindicatos urbanos e rurais, refundar partidos, ONG´s, fóruns e coisa e tal. Incentivou publicações e panfletos.

Passei uns dias nas terras dos Carajás ao lado do educador. Dele nunca ouvi conselho. Seria o exemplo da coerência política e a opção pela base a lição do nordestino; ao contrário de muitos parceiros da antiga, que encontraram ou se perderam por outras veredas, corredores, palácios e catedrais?

As seis décadas de estrada não o impedem de encarar as esburacadas e arriscadas rodovias federais e estaduais, até aportar nas quebradas do Xingu, em São Félix, para ter dedo de prosa com as populações ameaçadas pelos projetos da Vale e de outras empresas. Vai de van, onde o carro não pode alcançar encara moto, barco, burro ou vai a pé.

Outro dia Raimundinho fez um monte de gente chorar. E como o povo chorou quando Raimundinho tombou na orla cidade de Marabá. Sobrou lágrima para tudo que foi lado. Mais de uma cerveja e desatenção o levaram ao chão. Machucou cabeça, costelas....não sei se ferido saiu o coração...

Marluze Pastor, o camponês Manoel Conceição, as quebradeiras de coco babaçu Querubina do Maranhão e Raimunda do Tocantins, a educadora Rosa Acevedo, o ativista Jorge Néri, a jovem socióloga Rosemary Bezerra, o comandante Raimundinho são algumas pessoas que povoam o pensamento quando as coisas não estão lá muito bem, e tudo parece perdido.

Assim como vários padres da antiga, entre eles Roberto de Valicourt, o ativista Emanuel Wamberg (Manu), o pesquisador belga Jean Hébette, e tantas outras gentes, Raimundinho tem o nome cravado na história dos povos das terras dos Carajás.

Cá, distante mais de 500 quilômetros, envio as parcas e porcas linhas como manifestação de apreço e admiração.  Até a vitória.       

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Marajó- fazendeiro ordena detenção de adolescentes quilombolas


Três adolescentes quilombolas da Comunidade Rio Gurupá ficaram apreendidos por na tarde de segunda, 23, na delegacia do município de Cachoeira do Arari, região do Marajó. Sob ordem de um fazendeiro de prenome Assis, um policial e um capanga realizaram a detenção. 
 
Os jovens estariam pegando açaí numa área em disputa pelo fazendeiro e as comunidades quilombolas da região. Assis é considerado o “terror” dos quilombolas. As informações são de uma pesquisadora que trabalha na região.  
 
Como em muitas cidades do estado, em Cachoeira do Arari não há delegado. Os jovens foram soltos somente no fim da tarde. A soltura foi possível após a intervenção de uma das mães junto ao Conselho Tutelar. O grupo era formado por quatro jovens, um conseguiu escapar e mobilizar as famílias dos detidos.
 
Um dos jovens foi agredido com uma coronhada de revólver de um policial. Os policiais não permitiram que fosse feito exame de corpo delito. O clima na região é tenso.
 
Um grupo de pessoas da comunidade chegou a ir à delegacia para recuperar os adolescentes na marra. Felizmente eles já haviam sido liberados, o que evitou uma situação de confronto. A pesquisadora que não quis se identificar informa que a situação se arrasta há anos.
 
Terra em disputa
A referida área que está em litígio desde a Ação Civil Pública ajuizada pelo MPF em 2009. Ela tem sido palco de conflito entre fazendeiro e os quilombolas do rio Gurupá, especialmente nessa época do ano quando começa a safra do açaí.
 
É a segunda vez que fazendeiros, capangas e policias apreendem adolescentes em menos de um mês. O processo sobre a situação da disputa do território encontra-se nos anais da burocracia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bar do Parque - entre anões, profissionais do sexo e aposentados

Sol quente. Perto de 40º na Praça da República. Cerveja no Bar do Parque é o socorro. Apesar das férias o local tá cheio. Uma turma do Projeto Rondon circula na área. Ceará, um senhor encorpado, entre um gole de água e gracejos ironizando o Paysandu, comercializa triturador de verduras. Ao fim do expediente ele joga fora a tritura de dia inteiro: repolhos, cenouras, couves e beterrabas. Penso que poderia ter um destino mais nobre.
Taxistas, profissionais do sexo flutuam ali. O espaço na década de 1980 foi local de agrupamento de ativistas políticos e artistas. Duas vezes por mês, desde o ano passado, um coletivo intitulado Canalha ocupa a praça ao fim da tarde. Faz rodas de samba, choro e afoxé. Manifestos disso e daquilo e coisa e tal.
Não há energia elétrica. Gelo socorre o freezer. Um senhor de estatura modesta, cabeça branca disputa espaço no pequeno balcão. Ceará brinca com ele. Diz que uma senhora com quem ele fez sexo na semana passada foi a óbito, e que a causa mortis foi a língua. A língua do Orlando parece ser célebre entre os habitues do bar. Todos brincam.
Segunda cerveja. A prosa desfila. Iolanda, negra de uns 40 anos, corpo esguio engrossa o coro. Vestido negro com flores em cinza não oculta o sutiã e toscas tatuagens. A migrante de São Luís defende-se como profissional do sexo. Ela morou no bairro chamado Anjo da Guarda, próximo ao porto do Itaqui, que escoa o minério saqueado na Serra de Carajás, a sudeste do Pará.    
Iolanda pede cerveja para Orlando. Causos pipocam no intervalo de goles de cerveja. Ela alisa o pau do Orlando. Amassa. Ele ri. Fica vermelho. Não é de vergonha. Ela explica que é do trecho. Já andou meio mundo entre o Maranhão e o Pará.
Conta que um francês de 70 anos banca o apartamento dela. Orlando é aposentado e conhecedor de todos os puteiros do circuito da Cidade Velha. É uma pessoa habilitada para consultor no assunto, e a produção de guia de puteiros na Cidade Velha de Belém.
E tome amasso de Iolanda no pau de Orlando. Até o papo ser interrompido por um anão embriagado. O pequeno cidadão traja somente um short verde. Ele reclama por uma dose de cachaça. No Bar do Parque não vende pinga. Somente ovos coloridos, café, conhaque e coisa e tal.  Conhaque para o anão. Toma a metade do copo de única vez.
O nanico que diz já ter sido atleta do time de futebol Gigantes do Norte, um escrete de anões organizado pela Tuna Lusa faz graças para Iolanda. Elogia. Diz que ela é gostosa e coisa tal. Fica inconveniente, faz flexões com uma das mãos nas costas.    
Após quase meter a cabeça contra a parede no Bar do Parque resolve ir embora. A energia volta. O problema ocorreu na Av. José Malcher. Uns três caminhões operavam para equacionar o sinistro.
Terceira cerveja. Orlando aconselha que o melhor dia para visitar a Praia do Outeiro é segunda feira. Ele explica com entusiasmo o modus operandi. "A gente chega na barraca, pede uma cerva, algo para comer. Não tarda as meninas encostam e pedem algo. Meu chefe, a trepada morre por no máximo vinte contos. E todos ficam felizes”, arremata Orlando.
Pago a cerveja e sigo para contemplar a baía do Guajará no Ver o Peso. Mais cerva na barraca do finado PC. O carimbozeiro Curuperé e trupe encostam e puxam o som. Tento ajudar na percussão. Curiosos espiam. Vez em quando o chapéu circula. É mais de treze horas. A Preta chega. Pago a conta e vou embora para uns dedos de prosa. e coisa...e coisa...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Marabá – relatos de pessoas nem tão invisíveis assim


Ribamar da Conceição tem 58 anos. É pai de sete filhos fruto de relacionamentos com seis mulheres diferentes. Diz ter 13 netos. Conceição é natural da cidade de Carolina, sul do Maranhão, região do cerrado. Um conjunto de cachoeiras é o principal atrativo da cidade, sendo Pedra Caída a mais festejada.

Aos 13 anos Ribamar já era órfão de pai e mãe. Junto com ele quatro irmãos. Todos estão dispersos pelo mundo.  Desde então não tem notícias deles. Sabe que uma irmã mora em Xambioá, no estado do Tocantins. O rio Araguaia separa Xambioá do município de São Geraldo do Araguaia, no Pará. Conceição ambiciona rever a irmã. Um recado num programa de rádio é a opção adotada.   

Ele conta que assim que a orfandade aportou um senhor o levou para Belém.  Não se adaptou e desceu para Marabá, local conhecido pela migração de maranhenses.

Na década de 1970 labutou de tudo. O ciclo da castanha e o movimento da Guerrilha do Araguaia pulsavam. Os rios eram as principais vias de comercio e comunicação entre a região,  a capital e o exterior. Tempo de batelão. Foi catador de ouriço da castanha. Um símbolo de riqueza da época escoado pelo caudaloso rio Tocantins.

Conceição tem os dentes em desalinho e o traje roto. Não refuga um trago de pinga. Ri fácil. Já foi juquireiro. Uma espécie de mato comum em pastos de fazendas locais. Hoje ele trabalha como cuidador de sítio. É caseiro. E sempre que pode faz roça nas vazantes do rio, onde planta de um tudo: milho, melancia e maxixe em particular. Nestes dias de sol deixou o local para receber o troco e tomar umas em Marabá.

Pezão Por um instante Pezão, como é conhecido o negro João Batista não nasceu no dia de São João. Veio ao mundo uma hora depois. Na madruga do dia 25 de junho. Ele tem 66 anos. Como Conceição trabalhou em castanhais da região.

A frondosa castanheira e o mogno abundaram no sul e sudeste do estado, até o fim da década de 1970, antes dos incentivos econômicos e fiscais promoverem a pecuária extensiva.   No auge do ciclo da castanha a safra boa alcançava até 50 mil hectolitros, conta Batista.

Pezão parece bem articulado. Relembra histórias de pessoas afortunadas e de outras nem tanto assim. O negro conta que um senhor de sobrenome Almeida era mais rico que os Mutran nos tempos dos castanhais.  

Ele lembra que Almeida morrendo de amores por uma senhora casada solicitou a Pezão que o ajudasse no processo de galanteio. O afortunado Almeida prometia tudo. Um belo dia o marido da senhora viajou e a empreita foi realizada. O destino foi uma fazenda. Final de semana em festa.

Na volta não contavam que o marido chegasse tão cedo. A moça foi expulsa de casa e acolhida pelo rico Almeida. Deu casa e dinheiro. A maranhense de cor branca hoje é dona de hotel em beira de praia em São Luís, conta Batista.  

Pezão foi jurado de morte pelo corneado, promessa que não se realizou. O nosso interlocutor é um fumante contumaz.  O papo rola em momentos diferentes. Um no bar da Ana.

O bar fica na beira do rio, no bairro do Cabelo Seco. Ana é uma negra encorpada, irmã de Batista. O outro dedo de prosa ocorre no dia seguinte num boteco que abriga os “pés inchados” da comunidade.

A história do bairro Cabelo Seco se confunde com a fundação da cidade de Marabá, forjada a partir da dinâmica de trocas comerciais ocorridas no rio Tocantins. O bairro fica na parte antiga da cidade, conhecida como Cidade Velha, que concentra o comércio, bancos e o estádio de futebol da cidade.

A sociodiversidade do bairro reflete o processo de migração da região, marcada pela presença de nordestinos com ênfase no estado do Maranhão, em particular população negra.  

Os varais de roupa nas ruas é uma marca do logradouro. Apesar de algumas vias serem barrentas e não indicadas para abrigar varais.  

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Mineração na Amazônia - encontro reúne em Parauapebas\PA atingidos do MA e PA


Desde o ano de 2009 realizamos o encontro regional de atingidos(as) pela mineração dos Estados do Pará e Maranhão, que discutem problemáticas geradas pela atividade de extração  e transformação mineral na região de Carajás, e o gerados também pelas logísticas: hidrelétricas, linhas de transmissão de energia, rodovias e ferrovias.

Este ano o encontro ocorrerá diante da ampliação dos problemas ambientais e sociais com a construção do ramal ferroviário(Parauapebas/Canaã dos Carajás), duplicação da ferrovia Carajás/Ponta da Madeira, e  implantação do maior projeto da Vale, no momento, o Projeto S11D.

Este ano também está colocado para a sociedade o debate sobre o Marco Regulatório da Mineração, que o governo elaborou mas o mantém escondido e longe dos mais interessados, o povo brasileiro. A proposta foi elaborada pelo governo e está sendo discutida, a portas fechadas, apenas com as empresas mineradoras e suas entidades representativas.

Por outro lado, os movimentos sociais estão se mobilizando, desenvolvendo a Campanha Contra o Saque dos Nossos Minérios, constituindo Comitê Nacional e movimento nacional dos(as) atingidos(as) por mineração, no sentido de provocar o governo para colocar em discussão pela sociedade brasileira a proposta do Marco Regulatório.

Portanto, será um grande desafio para os movimentos sociais e pessoas que participarem deste encontro, no sentido de construir encaminhamentos que dê conta de enfrentar esta dura realidade.

CEPASP, MST, MAB, CPT, Rede Justiça nos Trilhos, Movimento Debate e Ação, STTR de Canaã dos Carajás, FEAB, PJ,
Data: 05 e 06 de julho de 2013.
Local: IALA – PA Palmares II, Parauapebas.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

John Coltrane Spiritual


domingo, 9 de junho de 2013

Publicação trata dos passivos sociais e ambientais da Vale no MA e PA

 
Essa segunda edição da revista é inteiramente dedicada à duplicação do sistema mina-ferrovia-porto em concessão à empresa Vale, nos estados de Pará e Maranhão. Artigos de jornalistas, pesquisadores acadêmicos e instituições ambientais analisam os impactos provocados às comunidades e ao meio ambiente, bem como os interesses ecônomicos que sustentam esse enorme empreendimento.  Baixe o documento AQUI]

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vale espiona movimentos sociais

Agentes da Abin faziam parte do quadro da Vale, organizações exigem urgência nas investigações do MPF

Nós , entidades e movimentos sociais, repudiamos a ação de espionagem aos movimentos sociais e exigimos do MPF a apuração urgente do caso. Ao mesmo tempo manifestamos nossa solidariedade à Justiça nos Trilhos e ao MST, citados nominalmente na denúncia.

O ex-gerente de Inteligência corporativa da Vale, André Almeida, apresentou ao MPF 1.300 páginas de documentos a respeito das atividades da chamada Diretoria de Segurança, fundada em 2007 para investigar os movimentos sociais. Foram adotadas práticas como infiltração de agentes nos movimentos, grampos telefônicos e quebras de sigilos bancários de qualquer pessoa ou organização que pudesse afetar a mineradora, como a Justiça nos Trilhos e o MST, assim como de jornalistas e de seus próprios funcionários. <

Desde março, o caso está nas mãos do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ), que precisa tratá-lo como prioridade, uma vez que esta última acusão contra a empresa se acumula a outras que já se tornaram públicas sem nada ser feito.

Com o surgimento constante de denúncias, a própria Vale foi obrigada a admitir que tinha ex-funcionários da Abin em seu quadro de empregados, assim como o monitoramento dos movimentos sociais por meio da Diretoria de Segurança. Em meio a tantas evidências e indícios, não há como negar a necessidade urgente de uma investigação completa das atividades da mineradora, que ameaçam a segurança daqueles que buscam lutar contra suas atividades danosas ao meio ambiente e à população.

Já em 2011 o relatório “Brasil – Quanto valem os Direitos Humanos” , da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), da Justiça Global e da Justiça nos Trilhos denunciava que a Vale, com a colaboração de órgãos públicos de segurança e de justiça, e também de meios de comunicação e de outros atores privados, realiza ações que podem ser qualificadas como de perseguição judicial, de intimidação e de criminalização daqueles e daquelas que trabalham na defesa dos direitos das pessoas que sofrem impactos pelas operações desta empresa.

Este episódio reforça o quadro de criminalização e estigmatização a que estão submetidos os movimentos sociais e organizações da sociedade civil. A própria Justiça nos Trilhos foi vítima de uma invasão do seu escritório, em janeiro de 2012, e teve seu site hackeado, ficando fora do ar, de novembro de 2012 a fevereiro de 2013. Em 24 de fevereiro deste ano, outro caso de espionagem veio à tona quando um espião contratado pelo Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) foi flagrado na reunião de planejamento do Movimento Xingu Vivo para Sempre em Altamira, Pará. O agente infiltrado relatou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também faria parte do esquema de espionagem. Em 2011, um relatório da agência que se tornou público mostrava uma lista de ONG’s divergentes ao projeto da hidroelétrica.

A prática da espionagem é inadmissível na democracia. Na qualidade de organizações e movimentos de promoção e defesa dos direitos humanos, condenamos profundamente essas iniciativas que remontam os tempos sombrios da ditadura.

Exigimos que o MPF investigue com urgência o caso de espionagem.
Abaixo a criminalização e espionagem aos movimentos sociais!
Lutar não é crime!