quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Viagem a um quilombo no PA - Diário de Lilian Campelo

Lilian Campelo
 
Ao ler ou ouvir histórias de jornalistas que navegavam os rios da Amazônia ou se aventuravam pelas estradas empoeiradas e esburacas me transportava para o imaginário daquelas narrativas.
 
Ao sonhar acordada tentava criar cenas de como eu me comportaria em tal situação. Ter o tal feeling para saber se uma história poderia render uma boa matéria, criar fontes num local onde você não é conhecido tendo em mãos apenas o papel e a caneta.
 
Nesses lugares esquecidos é que eu queria mergulhar.
 
Moju. 13hs. Chego à rodoviária lotada e de lá vejo o rio que batiza a cidade. A alça viária arqueia o rio das cobras. Foi ela que apagou o tempo da travessia feita pelos barcos.
 
Ao descer do ônibus percebo que alguns olhares me acompanham. Queria passar despercebida por esses olhares. Resolvo então sentar. Ficar quieta. Observo as pessoas em suas esperas por alguma coisa que as deixam com o olhar vago e longe. Talvez seja o calor que as deixem assim. No terminal havia dois ventiladores de teto. Dava pra contar quantas vezes as paletas giravam. O sol estava escaldante.
 
Perdi o ônibus de 11horas que leva para o território de Jambuaçu. Vou a um dos guichês e pergunto a moça que muito educada responde. “Tá vendo a placa aqui em cima? Aqui é só ônibus da empresa ‘tal’ que vai pra Belém”.
 
Ônibus para Jambuaçu só tem um horário, depois disso não tem mais transporte. Encosto próximo da parada em que os ônibus estacionam e pergunto para um rapaz se ele sabe de outro ônibus para Jambuaçu: Somente às 15hs, pode ser que venha. E como faz pra saber se vem ou não? Só quando chegar o horário.
 
O relógio aponta ainda 13h35min, não tenho tanto tempo assim, sábado preciso voltar pra Belém.
Vou ao um mercadinho que fica atrás da rodoviária. Compro crédito para o celular. Nesse ínterim pergunto ao dono se ele conhece algum mototáxi de confiança que possa me levar a Jambuaçu. “É moça faz bem perguntar sim. Vou chamar um que leva minha esposa quando ela precisa sair”.
 
Chega o mototaxista, Sedex. Acerto com ele o valor. Peço o capacete, mas ele só tinha um e me enrola dizendo que é bem ali e que não há perigo não. Esse bem ali era 25 km de estrada, do centro até o território.
 
O descaso com as comunidades que integram o território começam pela rodovia quilombola. Em época de chuva a estrada vira atoleiro. No verão é poeira e os buracos ficam a mostra. Em determinado percurso sou avisada pelo Sedex que a rodovia tinha terminado e que começava o ramal. Pra mim não havia nenhuma diferença, mato de um a lado a outro cortado pelas linhas de transmissão de energia.
 
Resolvo tirar a câmera fotográfica para registrar as condições da estrada, mas antes informo ao Sedex que estou indo ao território para fazer uma reportagem – como se isso fosse resolver alguma coisa, mas de qualquer modo me senti segura para tirar a câmera– Pergunto se há algum perigo ali. “Não tem não, tá tranquilo” e ele começa a me ajudar no registro de imagens, vai parando onde há as verdadeiras crateras ao longo do ramal. Sedex honra o apelido que tem. Dirigi pelos buracos sem pena da moto. Vez e outra dou uma batida no ombro dele, só para relembra-lo que eu estava ali.
 
Chego à Casa Familiar Rural. Lá estava sendo realizado um encontro de mulheres quilombolas de Jambuaçu. Mesmo empoeirada e cansada estampo meu sorriso. Quem me acolhe é Maria de Nazaré Silva Rodrigues, presidente da Associação Quilombola de Santa Maria do Traquateua.
 
Ainda menina Nazaré lembra quando a família teve a casa queimada por posseiros na década de 80.
Naquela época a empresa Reasa tinha se instalado na região para expandir a monocultura do dendê utilizando grileiros e jagunços para expulsar as famílias de suas terras.
 
Depois de um descaso ainda naquele dia vou atrás das entrevistas. Nazaré já não estava mais no encontro, tinha ido embora. Resolvo ir a sua comunidade. Foi uma longa entrevista com ela, dona Sabá (mãe) e a tia, a dona Florência. Três mulheres que testemunharam a violência no campo em períodos diferentes na região.
 
Já é noite. Volto pra Casa Familiar Rural. Durante o jantar conheço o presidente da Banbaê(Associação Quilombola de Jambuaçu), Ricardo Tavares. Homem franzino de olhar desconfiado. Por sinal a desconfiança me seguiu durante a minha estadia lá. A todo o momento eles me perguntavam pra qual jornal eu trabalhava, ou em outros afirmavam. “É pesquisa que você tá fazendo?”. Pra saber se eu não iria cair em contradição.
 
Naquela mesma noite entrevistei o presidente e a Waldirene Castro, coordenadora pedagógica naescola. No sábado de manhã no alojamento acordo com a conversa das mulheres.
- E ai Wal, ela te sugou né.
- Eu falei tudo, mas ainda tô com um pé atrás.
 
Eu compreendia essa ressalva. A Vale chegou a infiltrar pessoas ligadas a empresa para saber quais as ações que o movimento iria tomar contra ela.
 
Ao término daquele sábado ainda com resquícios da sexta exaustiva volto pra Moju no mesmo ônibus que Wal. Ela também aparenta cansaço devido o encontro, mas ainda tem ânimo na voz e vai me apresentado as comunidades do território ao longo da viagem e conta que antes as relações entre as pessoas eram outras. “Havia mutirões pra ajudar na comunidade, as pessoas se conheciam, havia mais confiança e solidariedade”.
 
O ônibus chega à comunidade dela, me despeço com um abraço e agradeço a acolhida. O tempo que durou aquela a viagem fez com que Wal retornasse ao passado e extraísse dele a confiança que ficou lá longe, nos tempos em que se atravessava o rio de barco. Ela contou saudosista o que foi o território de Jambuaçu, creio que naquele instante ela tenha tirado aquele pé detrás dela.

terça-feira, 30 de julho de 2013

Raimundinho - seis décadas de estradas, rios e lutas


Hercúleas são as grandezas amazônicas, rios, biodiversidade, gentes, conhecimento, alegrias e tristezas. E como tem gentes no vasto universo Amazônico. Anônimos, invisibilizados, arrancados da horizontalidade do cotidiano por conta de tragédias, como os massacres, ou algum feito raro, fora do comum, tal o do atleta especial Alan Fonteles.

Tem gentes na Amazônia. Um montão. Um mundo de gentes a contrariar a correnteza do rio da brutalidade do capital e do autoritarismo do Estado. O par impõe uma lógica baseada em mega projetos para a região, homogeneíza e expropria as populações nativas, devasta a floresta, detona os rios, barrancos, e mais que tudo, vidas, histórias e conhecimentos ancestrais.

No vasto mundo das terras dos Carajás tem um mundo de gentes teimosa. Uma pororoca de Raimundos, a cruzar o Tocantins, o Araguaia e Itacaiúnas. Nestes dias um deles soma seis décadas de trecho. O bravo nordestino tem o sobrenome Gomes da Cruz Neto, entre os pares tratado somente de Raimundinho.

A baiana Angelina é a corda da caçamba do piauiense Raimundinho. Thiago e João são os filhos biológicos. E sei lá quantos outros adotivos passaram pela asa do casal. Vítor é o neto. Raimundinho tem um monte de irmão. Conta com pai e mãe ainda hoje. Na casa do agrônomo e sociólogo nunca falta abrigo a um trabalhador rural ou urbano, um ativista ou dirigente popular. Algum pesquisador ou jornalista. Ainda que seja de meia pataca, como eu.  

Tantas vezes ali fiz pouso, filei boia e pinga, falei bobagens, ouvi canções, desafinei o canto do trovador Peixinho, mexi com moças... O “comandante”, como tratam os mais jovens, comporta no corpo franzino um grande coração.  Ao seu jeito externaliza generosidade aos que ali buscam uma ajuda para tentar compreender a complexa região de Carajás, ou com quem cruza pelos bares ou encontros e desencontros da vida. 

O educador de cabelo black é do tempo da Guerrilha do Araguaia. Tem história para contar. Foi de partido clandestino nos tempos da ditadura. Pós milicos, ajudou a organizar sindicatos urbanos e rurais, refundar partidos, ONG´s, fóruns e coisa e tal. Incentivou publicações e panfletos.

Passei uns dias nas terras dos Carajás ao lado do educador. Dele nunca ouvi conselho. Seria o exemplo da coerência política e a opção pela base a lição do nordestino; ao contrário de muitos parceiros da antiga, que encontraram ou se perderam por outras veredas, corredores, palácios e catedrais?

As seis décadas de estrada não o impedem de encarar as esburacadas e arriscadas rodovias federais e estaduais, até aportar nas quebradas do Xingu, em São Félix, para ter dedo de prosa com as populações ameaçadas pelos projetos da Vale e de outras empresas. Vai de van, onde o carro não pode alcançar encara moto, barco, burro ou vai a pé.

Outro dia Raimundinho fez um monte de gente chorar. E como o povo chorou quando Raimundinho tombou na orla cidade de Marabá. Sobrou lágrima para tudo que foi lado. Mais de uma cerveja e desatenção o levaram ao chão. Machucou cabeça, costelas....não sei se ferido saiu o coração...

Marluze Pastor, o camponês Manoel Conceição, as quebradeiras de coco babaçu Querubina do Maranhão e Raimunda do Tocantins, a educadora Rosa Acevedo, o ativista Jorge Néri, a jovem socióloga Rosemary Bezerra, o comandante Raimundinho são algumas pessoas que povoam o pensamento quando as coisas não estão lá muito bem, e tudo parece perdido.

Assim como vários padres da antiga, entre eles Roberto de Valicourt, o ativista Emanuel Wamberg (Manu), o pesquisador belga Jean Hébette, e tantas outras gentes, Raimundinho tem o nome cravado na história dos povos das terras dos Carajás.

Cá, distante mais de 500 quilômetros, envio as parcas e porcas linhas como manifestação de apreço e admiração.  Até a vitória.       

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Marajó- fazendeiro ordena detenção de adolescentes quilombolas


Três adolescentes quilombolas da Comunidade Rio Gurupá ficaram apreendidos por na tarde de segunda, 23, na delegacia do município de Cachoeira do Arari, região do Marajó. Sob ordem de um fazendeiro de prenome Assis, um policial e um capanga realizaram a detenção. 
 
Os jovens estariam pegando açaí numa área em disputa pelo fazendeiro e as comunidades quilombolas da região. Assis é considerado o “terror” dos quilombolas. As informações são de uma pesquisadora que trabalha na região.  
 
Como em muitas cidades do estado, em Cachoeira do Arari não há delegado. Os jovens foram soltos somente no fim da tarde. A soltura foi possível após a intervenção de uma das mães junto ao Conselho Tutelar. O grupo era formado por quatro jovens, um conseguiu escapar e mobilizar as famílias dos detidos.
 
Um dos jovens foi agredido com uma coronhada de revólver de um policial. Os policiais não permitiram que fosse feito exame de corpo delito. O clima na região é tenso.
 
Um grupo de pessoas da comunidade chegou a ir à delegacia para recuperar os adolescentes na marra. Felizmente eles já haviam sido liberados, o que evitou uma situação de confronto. A pesquisadora que não quis se identificar informa que a situação se arrasta há anos.
 
Terra em disputa
A referida área que está em litígio desde a Ação Civil Pública ajuizada pelo MPF em 2009. Ela tem sido palco de conflito entre fazendeiro e os quilombolas do rio Gurupá, especialmente nessa época do ano quando começa a safra do açaí.
 
É a segunda vez que fazendeiros, capangas e policias apreendem adolescentes em menos de um mês. O processo sobre a situação da disputa do território encontra-se nos anais da burocracia do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA).
 

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Bar do Parque - entre anões, profissionais do sexo e aposentados

Sol quente. Perto de 40º na Praça da República. Cerveja no Bar do Parque é o socorro. Apesar das férias o local tá cheio. Uma turma do Projeto Rondon circula na área. Ceará, um senhor encorpado, entre um gole de água e gracejos ironizando o Paysandu, comercializa triturador de verduras. Ao fim do expediente ele joga fora a tritura de dia inteiro: repolhos, cenouras, couves e beterrabas. Penso que poderia ter um destino mais nobre.
Taxistas, profissionais do sexo flutuam ali. O espaço na década de 1980 foi local de agrupamento de ativistas políticos e artistas. Duas vezes por mês, desde o ano passado, um coletivo intitulado Canalha ocupa a praça ao fim da tarde. Faz rodas de samba, choro e afoxé. Manifestos disso e daquilo e coisa e tal.
Não há energia elétrica. Gelo socorre o freezer. Um senhor de estatura modesta, cabeça branca disputa espaço no pequeno balcão. Ceará brinca com ele. Diz que uma senhora com quem ele fez sexo na semana passada foi a óbito, e que a causa mortis foi a língua. A língua do Orlando parece ser célebre entre os habitues do bar. Todos brincam.
Segunda cerveja. A prosa desfila. Iolanda, negra de uns 40 anos, corpo esguio engrossa o coro. Vestido negro com flores em cinza não oculta o sutiã e toscas tatuagens. A migrante de São Luís defende-se como profissional do sexo. Ela morou no bairro chamado Anjo da Guarda, próximo ao porto do Itaqui, que escoa o minério saqueado na Serra de Carajás, a sudeste do Pará.    
Iolanda pede cerveja para Orlando. Causos pipocam no intervalo de goles de cerveja. Ela alisa o pau do Orlando. Amassa. Ele ri. Fica vermelho. Não é de vergonha. Ela explica que é do trecho. Já andou meio mundo entre o Maranhão e o Pará.
Conta que um francês de 70 anos banca o apartamento dela. Orlando é aposentado e conhecedor de todos os puteiros do circuito da Cidade Velha. É uma pessoa habilitada para consultor no assunto, e a produção de guia de puteiros na Cidade Velha de Belém.
E tome amasso de Iolanda no pau de Orlando. Até o papo ser interrompido por um anão embriagado. O pequeno cidadão traja somente um short verde. Ele reclama por uma dose de cachaça. No Bar do Parque não vende pinga. Somente ovos coloridos, café, conhaque e coisa e tal.  Conhaque para o anão. Toma a metade do copo de única vez.
O nanico que diz já ter sido atleta do time de futebol Gigantes do Norte, um escrete de anões organizado pela Tuna Lusa faz graças para Iolanda. Elogia. Diz que ela é gostosa e coisa tal. Fica inconveniente, faz flexões com uma das mãos nas costas.    
Após quase meter a cabeça contra a parede no Bar do Parque resolve ir embora. A energia volta. O problema ocorreu na Av. José Malcher. Uns três caminhões operavam para equacionar o sinistro.
Terceira cerveja. Orlando aconselha que o melhor dia para visitar a Praia do Outeiro é segunda feira. Ele explica com entusiasmo o modus operandi. "A gente chega na barraca, pede uma cerva, algo para comer. Não tarda as meninas encostam e pedem algo. Meu chefe, a trepada morre por no máximo vinte contos. E todos ficam felizes”, arremata Orlando.
Pago a cerveja e sigo para contemplar a baía do Guajará no Ver o Peso. Mais cerva na barraca do finado PC. O carimbozeiro Curuperé e trupe encostam e puxam o som. Tento ajudar na percussão. Curiosos espiam. Vez em quando o chapéu circula. É mais de treze horas. A Preta chega. Pago a conta e vou embora para uns dedos de prosa. e coisa...e coisa...

quinta-feira, 11 de julho de 2013

Marabá – relatos de pessoas nem tão invisíveis assim


Ribamar da Conceição tem 58 anos. É pai de sete filhos fruto de relacionamentos com seis mulheres diferentes. Diz ter 13 netos. Conceição é natural da cidade de Carolina, sul do Maranhão, região do cerrado. Um conjunto de cachoeiras é o principal atrativo da cidade, sendo Pedra Caída a mais festejada.

Aos 13 anos Ribamar já era órfão de pai e mãe. Junto com ele quatro irmãos. Todos estão dispersos pelo mundo.  Desde então não tem notícias deles. Sabe que uma irmã mora em Xambioá, no estado do Tocantins. O rio Araguaia separa Xambioá do município de São Geraldo do Araguaia, no Pará. Conceição ambiciona rever a irmã. Um recado num programa de rádio é a opção adotada.   

Ele conta que assim que a orfandade aportou um senhor o levou para Belém.  Não se adaptou e desceu para Marabá, local conhecido pela migração de maranhenses.

Na década de 1970 labutou de tudo. O ciclo da castanha e o movimento da Guerrilha do Araguaia pulsavam. Os rios eram as principais vias de comercio e comunicação entre a região,  a capital e o exterior. Tempo de batelão. Foi catador de ouriço da castanha. Um símbolo de riqueza da época escoado pelo caudaloso rio Tocantins.

Conceição tem os dentes em desalinho e o traje roto. Não refuga um trago de pinga. Ri fácil. Já foi juquireiro. Uma espécie de mato comum em pastos de fazendas locais. Hoje ele trabalha como cuidador de sítio. É caseiro. E sempre que pode faz roça nas vazantes do rio, onde planta de um tudo: milho, melancia e maxixe em particular. Nestes dias de sol deixou o local para receber o troco e tomar umas em Marabá.

Pezão Por um instante Pezão, como é conhecido o negro João Batista não nasceu no dia de São João. Veio ao mundo uma hora depois. Na madruga do dia 25 de junho. Ele tem 66 anos. Como Conceição trabalhou em castanhais da região.

A frondosa castanheira e o mogno abundaram no sul e sudeste do estado, até o fim da década de 1970, antes dos incentivos econômicos e fiscais promoverem a pecuária extensiva.   No auge do ciclo da castanha a safra boa alcançava até 50 mil hectolitros, conta Batista.

Pezão parece bem articulado. Relembra histórias de pessoas afortunadas e de outras nem tanto assim. O negro conta que um senhor de sobrenome Almeida era mais rico que os Mutran nos tempos dos castanhais.  

Ele lembra que Almeida morrendo de amores por uma senhora casada solicitou a Pezão que o ajudasse no processo de galanteio. O afortunado Almeida prometia tudo. Um belo dia o marido da senhora viajou e a empreita foi realizada. O destino foi uma fazenda. Final de semana em festa.

Na volta não contavam que o marido chegasse tão cedo. A moça foi expulsa de casa e acolhida pelo rico Almeida. Deu casa e dinheiro. A maranhense de cor branca hoje é dona de hotel em beira de praia em São Luís, conta Batista.  

Pezão foi jurado de morte pelo corneado, promessa que não se realizou. O nosso interlocutor é um fumante contumaz.  O papo rola em momentos diferentes. Um no bar da Ana.

O bar fica na beira do rio, no bairro do Cabelo Seco. Ana é uma negra encorpada, irmã de Batista. O outro dedo de prosa ocorre no dia seguinte num boteco que abriga os “pés inchados” da comunidade.

A história do bairro Cabelo Seco se confunde com a fundação da cidade de Marabá, forjada a partir da dinâmica de trocas comerciais ocorridas no rio Tocantins. O bairro fica na parte antiga da cidade, conhecida como Cidade Velha, que concentra o comércio, bancos e o estádio de futebol da cidade.

A sociodiversidade do bairro reflete o processo de migração da região, marcada pela presença de nordestinos com ênfase no estado do Maranhão, em particular população negra.  

Os varais de roupa nas ruas é uma marca do logradouro. Apesar de algumas vias serem barrentas e não indicadas para abrigar varais.  

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Mineração na Amazônia - encontro reúne em Parauapebas\PA atingidos do MA e PA


Desde o ano de 2009 realizamos o encontro regional de atingidos(as) pela mineração dos Estados do Pará e Maranhão, que discutem problemáticas geradas pela atividade de extração  e transformação mineral na região de Carajás, e o gerados também pelas logísticas: hidrelétricas, linhas de transmissão de energia, rodovias e ferrovias.

Este ano o encontro ocorrerá diante da ampliação dos problemas ambientais e sociais com a construção do ramal ferroviário(Parauapebas/Canaã dos Carajás), duplicação da ferrovia Carajás/Ponta da Madeira, e  implantação do maior projeto da Vale, no momento, o Projeto S11D.

Este ano também está colocado para a sociedade o debate sobre o Marco Regulatório da Mineração, que o governo elaborou mas o mantém escondido e longe dos mais interessados, o povo brasileiro. A proposta foi elaborada pelo governo e está sendo discutida, a portas fechadas, apenas com as empresas mineradoras e suas entidades representativas.

Por outro lado, os movimentos sociais estão se mobilizando, desenvolvendo a Campanha Contra o Saque dos Nossos Minérios, constituindo Comitê Nacional e movimento nacional dos(as) atingidos(as) por mineração, no sentido de provocar o governo para colocar em discussão pela sociedade brasileira a proposta do Marco Regulatório.

Portanto, será um grande desafio para os movimentos sociais e pessoas que participarem deste encontro, no sentido de construir encaminhamentos que dê conta de enfrentar esta dura realidade.

CEPASP, MST, MAB, CPT, Rede Justiça nos Trilhos, Movimento Debate e Ação, STTR de Canaã dos Carajás, FEAB, PJ,
Data: 05 e 06 de julho de 2013.
Local: IALA – PA Palmares II, Parauapebas.

quarta-feira, 3 de julho de 2013

John Coltrane Spiritual


domingo, 9 de junho de 2013

Publicação trata dos passivos sociais e ambientais da Vale no MA e PA

 
Essa segunda edição da revista é inteiramente dedicada à duplicação do sistema mina-ferrovia-porto em concessão à empresa Vale, nos estados de Pará e Maranhão. Artigos de jornalistas, pesquisadores acadêmicos e instituições ambientais analisam os impactos provocados às comunidades e ao meio ambiente, bem como os interesses ecônomicos que sustentam esse enorme empreendimento.  Baixe o documento AQUI]

quarta-feira, 15 de maio de 2013

Vale espiona movimentos sociais

Agentes da Abin faziam parte do quadro da Vale, organizações exigem urgência nas investigações do MPF

Nós , entidades e movimentos sociais, repudiamos a ação de espionagem aos movimentos sociais e exigimos do MPF a apuração urgente do caso. Ao mesmo tempo manifestamos nossa solidariedade à Justiça nos Trilhos e ao MST, citados nominalmente na denúncia.

O ex-gerente de Inteligência corporativa da Vale, André Almeida, apresentou ao MPF 1.300 páginas de documentos a respeito das atividades da chamada Diretoria de Segurança, fundada em 2007 para investigar os movimentos sociais. Foram adotadas práticas como infiltração de agentes nos movimentos, grampos telefônicos e quebras de sigilos bancários de qualquer pessoa ou organização que pudesse afetar a mineradora, como a Justiça nos Trilhos e o MST, assim como de jornalistas e de seus próprios funcionários. <

Desde março, o caso está nas mãos do Ministério Público Federal do Rio de Janeiro (MPF-RJ), que precisa tratá-lo como prioridade, uma vez que esta última acusão contra a empresa se acumula a outras que já se tornaram públicas sem nada ser feito.

Com o surgimento constante de denúncias, a própria Vale foi obrigada a admitir que tinha ex-funcionários da Abin em seu quadro de empregados, assim como o monitoramento dos movimentos sociais por meio da Diretoria de Segurança. Em meio a tantas evidências e indícios, não há como negar a necessidade urgente de uma investigação completa das atividades da mineradora, que ameaçam a segurança daqueles que buscam lutar contra suas atividades danosas ao meio ambiente e à população.

Já em 2011 o relatório “Brasil – Quanto valem os Direitos Humanos” , da Federação Internacional dos Direitos Humanos (FIDH), da Justiça Global e da Justiça nos Trilhos denunciava que a Vale, com a colaboração de órgãos públicos de segurança e de justiça, e também de meios de comunicação e de outros atores privados, realiza ações que podem ser qualificadas como de perseguição judicial, de intimidação e de criminalização daqueles e daquelas que trabalham na defesa dos direitos das pessoas que sofrem impactos pelas operações desta empresa.

Este episódio reforça o quadro de criminalização e estigmatização a que estão submetidos os movimentos sociais e organizações da sociedade civil. A própria Justiça nos Trilhos foi vítima de uma invasão do seu escritório, em janeiro de 2012, e teve seu site hackeado, ficando fora do ar, de novembro de 2012 a fevereiro de 2013. Em 24 de fevereiro deste ano, outro caso de espionagem veio à tona quando um espião contratado pelo Consórcio Construtor Belo Monte (CCBM) foi flagrado na reunião de planejamento do Movimento Xingu Vivo para Sempre em Altamira, Pará. O agente infiltrado relatou que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) também faria parte do esquema de espionagem. Em 2011, um relatório da agência que se tornou público mostrava uma lista de ONG’s divergentes ao projeto da hidroelétrica.

A prática da espionagem é inadmissível na democracia. Na qualidade de organizações e movimentos de promoção e defesa dos direitos humanos, condenamos profundamente essas iniciativas que remontam os tempos sombrios da ditadura.

Exigimos que o MPF investigue com urgência o caso de espionagem.
Abaixo a criminalização e espionagem aos movimentos sociais!
Lutar não é crime!
 

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Daniel Dantas - novo grileiro da Amazônia, acusa CPT

O departamento jurídico da Comissão Pastoral da Terra - CPT da Diocese de Marabá, acaba de concluir um estudo, realizado em 04 (quatro) das mais de 50 fazendas pertencentes ao Grupo Santa Bárbara, o qual aponta que 71,81 % da área que compõe os quatro imóveis é composta por terras públicas federais e estaduais. O estudo foi feito nas fazendas: Cedro e Itacaiúnas (localizadas no município de Marabá), Castanhais e Ceita Corê (localizadas nos municípios de Sapucaia e Xinguara). Os quatro imóveis juntos, possuem uma área total de 35.512 hectares e de acordo com o levantamento feito, desse total, 25.504 hectares não há qualquer comprovação documental de que tenha havido o regular destaque do patrimônio público para o particular, ou seja, mais de 2/3 da área é constituída de terras públicas federais e estaduais.

 
Em relação à Fazenda Cedro, se apurou que o imóvel de 8.300ha é formado por seis áreas distintas: área 01 com 1.014,82 ha; área 02 com 4.430,42ha; área 03 com 1.15,25ha; área 04 com 791,40ha; área 05 com 520,40ha e área 06 com 528ha. Das seis áreas que compõe o complexo, há documentação legítima apenas das área 3 e 4, totalizando 1.543,25 hectares ou seja 22,8% do imóvel. O restante, 78,02% trata-se de terras públicas do Estado do Pará. O ITERPA e a Ouvidoria Agrária Nacional já foram informados da situação e um processo foi instaurado para apurar o caso.

 
Sobre a Fazenda Itacaiúnas a situação não é diferente. O imóvel de 9.995ha é composto por 05 (cinco) áreas distintas: área 01 com 3.612ha; área 02 com 2.169ha; área 03 com 2.084ha; área 04 com 1.585ha e área 05 com 489ha. Das cinco áreas que compõe o complexo, há documentação legítima apenas das áreas 2 e 3, totalizando 4.253 ha ou seja 42,55% do imóvel. O restante, 58,45% trata-se de terras públicas federais. Essa parte do estudo já foi encaminhada ao Juiz da Vara Agrária onde tramita o processo da Fazenda Itacaiunas.

 
Já em relação às Fazendas Castanhais e Ceita Corê que juntas totalizam 17.224 hectares, a fraude para se apropriar da terra pública foi ainda mais escandalosa. Utilizando apenas um título com área de 4.356 ha, expedido pelo Estado do Pará em 1962, se forjou matrículas de outros 12.868 ha que formaram a maior parte das duas fazendas citadas. Ou seja, 74,71% do total da área das duas fazendas é composta de terras públicas federais, ilegalmente ocupadas pelo Grupo Santa Bárbara. O Ministério Público Federal será acionado para adotar as medidas legais que o caso requer.

 
O Grupo Santa Bárbara, do banqueiro Daniel Dantas, nos últimos anos comprou mais de 50 fazendas na região com área superior a 500 mil hectares. Grande parte dessas áreas são constituídas de terras públicas federais e estaduais. Contudo, nem o INCRA e nem o ITERPA tem adotado qualquer medida legal para arrecadar as terras e destiná-las ao assentamento de famílias de trabalhadores rurais sem terra, conforme determina o artigo 188 da Constituição Federal, pois seus supostos [e falsos] proprietários são apenas meros detentores dos imóveis, haja vista a proibição constitucional de posse de particulares sobre bens públicos. Há seis anos que cerca de 650 famílias ligadas ao MST e a FETAGRI estão acampadas em quatro fazendas do grupo Santa Bárbara (Cedro, Itacaiúnas, Maria Bonita e Castanhais), esperando serem assentadas. Os 25.504 hectares de terras públicas ocupados ilegalmente pelo Grupo dariam para assentar cerca de 600 famílias.
 
 
Nos últimos 5 anos, seguranças e pistoleiros do Grupo Santa Bárbara, já assassinaram um trabalhador sem terra e feriram à bala outros 33, nas ocupações em suas fazendas. O Grupo tem sido também, frequentemente, denunciado por despejo ilegal, uso de veneno pulverizado por avião, contratação de pistoleiros e uso ilegal de armas de fogo, com o objetivo de expulsar as famílias que ocupam 5 de suas mais de 50 fazendas na região.

Marabá, 13 de maio de 2013

Comissão Pastoral da Terra - CPT da diocese de Marabá

terça-feira, 30 de abril de 2013

Praça do Operário- Tendências divergentes dividirão o espaço no Dia do Trabalhador


A Praça do Operário amanhã será dividida entre os segmentos que alfinetam o governo federal, estadual e municipal, e as centrais sindicais consideradas pelegas: CUT, CGT, FORÇA SINDICAL e outras menos expressivas.
É o prenúncio de uma situação de conflito? Em uma ocasião já houve o registro de troca de sopapos e outras “gentilezas” entre as tendências políticas.
Trabalhadores de todo o mundo: dividi-vos!   

São Braz abriga ato pelo Dia do Trabalhador

A Praça do Operário em São Braz abriga amanhã, a partir das 8.30h, um ato em comemoração e protesto pelo Dia do Trabalhador.
A busca incessante do superávit pelo governo federal, o arrocho salarial, a precarização do trabalho e as obras de infraestrutura e grandes na Amazônia são alguns dos pontos a serem tratados por um conjunto de organizações sindicais, movimentos sociais e partidos políticos.
 
Informações enviadas por Dion Monteiro - Xingu Vivo

domingo, 28 de abril de 2013

NAEA lança livros na Feira Pan Amazônica

O Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA) da Universidade Federal do Pará (UFPA) estará com um estande na XVII Feira Pan-Amazônica do Livro 2013, que ocorre no Hangar Centro de Convenções, em Belém. Entre as novidades estão os lançamento de seis livros pela Editora do NAEA e pelo IPHAN, além de promoções e descontos na compra de obras.
 
Migração - Na quarta-feira, 1º de maio, às 19h, serão lançados os dois livros ganhadores do Prêmio NAEA. Um deles, intitulado “Migração de Brasileiros para a Guiana como Estratégia de Sobrevivência”, de autoria de Hisakhana Corbin, representa uma contribuição original ao estudo da migração Internacional na Pan-Amazônia, ao tratar da ida de garimpeiros brasileiros para a Guiana, e os impactos ambientais, sociais e econômicos nesse país. O segundo é “Territorialização do Campesinato no Sudeste do Pará”, de Rogério Almeida, o qual mostra, por meio de elementos econômicos, sociais e políticos, o processo de territorialização camponesa nesta região do Pará, entre 1987 a 2005. Leia mais AQUI

Territorialização do campesinato no sudeste do PA - Dra. Rosa Acevedo analisa a obra

 
Rosa Elizabeth Acevedo Marin
 
 
Os discursos sobre a Reforma Agrária no Brasil dos governos do Partido dos Trabalhadores (PT) e do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) insistem sobre os resultados da política de assentamentos. Na visão burocrática o assentamento, categoria de intervenção, representa a extensão de vários imóveis rurais ou um número estimado de estabelecimentos para os assentados “clientes da política”. Os dados de criação de Projetos de Assentamentos (PA’s) muitas vezes apontados como manipulados nos relatórios, entram na corrida para revelar a eficiência das ações de reforma agrária localizada.
Outro foco discursivo convergente é elaborado por segmentos empresariais e do próprio Estado que exalta os êxitos do agronegócio e da agricultura familiar enquanto segmento subordinado ao modelo de mercado e de desenvolvimento capitalista no campo. Ao mesmo tempo, seus pronunciamentos apontam os acampamentos, as organizações que os apóiam, como ações descabidas, protagonizadas por sujeitos de fora da ordem das instituições.  O que está em jogo são os projetos, as ações e as estratégias dos agentes sociais que entram na disputa pela terra e recursos naturais evidenciando os paradoxos da política de desenvolvimento do Brasil, das estruturas de apropriação e de dominação centradas na terra e nos recursos.
No Brasil, o Estado e os grupos políticos de forma articulada opõem-se aos projetos de reforma agrária – proposta em termos radicais nos anos 50/60 e de forma maciça na década de 80. Em vez de atender a essa demanda social, o Estado propõe políticas de colonização, de assentamentos, que não passam de reformas agrárias localizadas, de reduzida capacidade para solucionar os problemas fundiários e agrários.  
Na história mais recente do campo brasileiro as políticas governamentais e as instituições executoras apresentam como resultados de suas ações o monopólio da terra, a concentração fundiária e o acirramento dos conflitos sociais no campo. Na região amazônica, estes são componentes da modernização da agricultura autoritária. No Sudeste do Pará desenvolvem-se processos econômicos e políticos que caracterizam o fechamento artificial da “fronteira” por conglomerados econômicos, pela concentração de pequenos produtores rurais de base familiar e pelo desenvolvimento espontâneo de um novo campesinato.
Sob a tensão permanente de atos de violência, os conflitos sociais no sudeste do Pará desenvolveram-se até se tornar obstáculos à implantação de projetos agropecuários, madeireiros e de mineração. Índios e posseiros lutavam pelas terras. Na década de oitenta órgãos oficiais  utilizaram a expressão “invasão de terras públicas e particulares” na Amazônia com o propósito de impedir que o produtor realizasse ocupações em terras devolutas, que aparentemente não eram o domínio das grandes empresas. Assim, ele encontrava uma alternativa que não o trabalho assalariado na cidade ou no campo, resultado inevitável do capitalismo. O camponês não é passivo na sociedade e tratava de sobreviver onde o capitalismo não havia chegado. Portanto, o avanço de trabalhadores sobre as terras devolutas ou a denominada colonização espontânea é um termo insuficiente para explicar o fenômeno. Comumente, o modelo espontâneo é oposto à colonização dirigida, que imporia uma racionalidade à ocupação, via construção de rodovias de integração e montagem de projetos de colonização. Mas esse modelo dirigido resulta de motivos geopolíticos e ideológicos, como a segurança nacional, via preservação das fronteiras.
Em 1980, os ocupantes no Maranhão, Goiás e Pará chegavam a 898.164, segundo o IBGE. Entendia o corpo militar que esses conflitos deviam ser reprimidos energicamente, posicionamento caracterizado como militarização do controle sobre os conflitos, realizada entre 1980 e 1985, como analisa Alfredo W. Berno de Almeida. O ritmo de desapropriações mostrava grave lentidão e os assentamentos até 1987 tiveram capacidade para assentar menos de 10% das famílias. A pressão das mobilizações camponesas na área de atuação do GETAT conseguiu desapropriar 15 latifúndios (área de 77.673 ha), beneficiando 1.208 famílias camponesas[1].
Na década de setenta, o Projeto Grande Carajás iniciava com as prerrogativas do governo que lhe permitiram o controle de grandes áreas para usufruto direito, como reservas ambientais e ainda ingerência em Áreas de Proteção Ambiental e Florestas Nacionais, controle de trabalhadores.  Essa situação foi modificada com o entorno formado por assentamentos.  Com a instalação da empresa Companhia Vale do Rio Doce (privatizada em 1997 e, hoje, Companhia VALE) esta procede a produzir sua própria territorialização, orientada para evitar tensões com os povos indígenas e o movimento camponês observa o autor deste trabalho, contudo,  as denúncias de suas ações desdiz  dos conflitos que continua a provocar.  Neste livro, o mapa da territorialização camponesa é também ilustrativo das superposições, fronteira e confrontos  com a empresa Vale.  Nele há menor possibilidade de identificar os latifúndios que persistem no sudeste do Estado.
A pesquisa de Rogério Almeida parte dessa complexa situação histórica suscitada pelas intervenções econômicas e fundiárias que ocorrem no sudeste do Pará, desde os anos setenta. A territorialização do campesinato no Sudeste do Pará é interpretada como “produto de pressão, negociações e acomodações de forças sociais e políticas”. Essa noção sintetiza diversas estratégias de agentes sociais de permanência na terra. Neste estudo são descritos diversos atos da vigorosa mobilização camponesa, mediada por setores religiosos, intelectuais, políticos e que produz territorialidades específicas.  
 O autor enfoca a política de assentamento no período 1997-2005 na perspectiva dos agentes sociais, de suas lutas e projetos. Mas, desde essa mesma perspectiva deduz que o projeto do Estado tem sido de “despolitizar os antagonismos sociais e neutralizar as reivindicações do movimento camponês”, assumindo a posição de priorizar a discussão sobre camponês e “política”. Hobsbawm[2] aponta a relação entre os dois conceitos: “A política em que os camponeses estão envolvidos com as sociedades mais amplas do que fazem parte. Ou seja,  as relações de camponeses com outros grupos sociais, tanto os que são seus “superiores”  ou exploradores econômicos,  sociais e políticos, quanto aqueles que não o são, os operários, por exemplo, ou outros setores do campesinato, e com as instituições ou unidades sociais mais abrangentes – o governo, o Estado nacional”.  Precisamente, o historiador aponta o fenômeno da invasão ou ocupação em massa de terras, enquanto forma de militância coletiva camponesa e procura conhecer como por meio dessas ações os camponeses, atingem os pressupostos sociais e políticos e o pensamento estratégico subjacente a elas.  No Sudeste do Pará as ocupações de terras, do INCRA foram uma estratégia de conquista de terra, de pressão para atendimento de reivindicações.  As desapropriações de castanhais que seguiram a chacinas e massacres foram precedidas pela criação de assentamentos.
Acontecimentos políticos importantes dos anos 80, com a redemocratização do país, até o presente marcam a questão da territorialização camponesa no Brasil. Primeiro, a Nova República que criou expectativas nos trabalhadores rurais discutidas no Congresso dos Trabalhadores Sem Terra e, em seguida, o IV Congresso Nacional dos Trabalhadores, promovido pela CONTAG. O Movimento dos Sem Terra realiza seu congresso em janeiro de 1985, em Curitiba e elabora um conjunto de resoluções que envolviam a demanda de uma reforma agrária sob o controle dos trabalhadores, a distribuição de todas as propriedades com áreas acima de 500 hectares, a expropriação das terras das multinacionais, a extinção do Estatuto da Terra e a criação de novas leis com a participação dos trabalhadores e a partir das suas práticas de luta. Os Sem Terra tinham poucas esperanças na Nova República e a descrença abriu um espaço para pressões acerca da realização da reforma agrária. O Movimento Sem Terra desencadeia no Sul do Brasil ocupações e acampamentos, que culminaria em março de 1985 quando estava prevista a aprovação da Proposta do Plano Nacional de Reforma Agrária, elaborada como  resultado de ampla discussão entre especialistas, trabalhadores rurais e, inclusive, com as entidades patronais. Entre janeiro e outubro de 1985 registraram-se pressões contra a Reforma Agrária.  A ação de desapropriação por interesse social foi imediatamente rejeitada. O Conselho de Segurança Nacional propôs a substituição do PNRA pelo Plano de Política Agrícola (PONDERE).
A contra-reforma apoiada nos elementos de política agrícola pretendia inutilizar o principal instrumento de reforma agrária, que era a desapropriação por interesse social. A desapropriação imediata vinha ao encontro das reivindicações antigas do Movimento Sindical dos Trabalhadores Rurais e de outros movimentos de apoio à Reforma Agrária. Sob essa pressão houve a redução das metas propostas, ocorreu a adulteração de parágrafos do documento oficial, inclusive o que se referia à negociação. A desapropriação imediata foi colocada em segundo plano. A pressão partia da União Democrática Ruralista, assim como da Tradição Família e Propriedade. Existia evidentemente um projeto intelectual que visava o fracasso do PNRA e essas influencias e pressões fizeram uma contra-reforma no campo.
As desapropriações foram feitas em áreas de grandes conflitos que envolveram duas ou três centenas de famílias. Ações de desapropriação foram marcadas pelo confronto com as forças da contra-reforma, por obstáculos administrativos no encaminhamento dos processos. O novo Ministro desviou a atenção das desapropriações, priorizando os assentamentos. A partir de então, a desapropriação deixou de ser prioridade; passaram a prevalecer as práticas de desapropriação amigável, os processos de negociação em detrimento de uma solução para áreas fundamentais. Em consequência, houve um aumento extraordinário dos conflitos. Muitos trabalhadores rurais foram assassinados. No Polígono dos Castanhais, em 1985, registraram-se 93 mortes e 102 homicídios dolosos, mas nenhuma desapropriação por interesse social. O único processo assinado foi o do castanhal Araras, embora com erros grosseiros.
Entre 1994-2002 processaram-se reformas estruturais de peso, assinalando um ponto de inflexão da política agrária. As novas dinâmicas da economia mundial influenciam na reestruturação do papel do Estado.  Entre as medidas exigidas pelo Banco Mundial estava a desobstrução do mercado de terras e a intervenção do Estado para impedir novas chacinas e massacres, para evitar a ocupação de terras por trabalhadores e acelerar a criação de assentamentos rurais.  Na pesquisa realizada por Rogério Almeida apresenta-se o tripé da política de Reforma Agrária do período: as ocupações de terras,  as pressões dos movimentos sociais e as exigências do Banco Mundial. O Estado implementa, assim, a política de assentamentos de famílias como política social compensatória, mediante a “estadualização” dos projetos de assentamentos, repassando a responsabilidade pelo Estado e Municípios; a substituição do instrumento constitucional de desapropriação pela propaganda do “mercado de terras”.
As tentativas de mensurar a territorialização “física”  do campesinato no sul e sudeste do Pará levam  Rogério Almeida a “considerar uma significativa territorialização”, representada por 450 assentamentos,  localizados em 36 municípios, com 58.152 famílias,  sendo que a capacidade seria de 85.061,  de conformidade com dados acumulados de 1987-2005.  A pesquisa suscita interesse por conhecer esse universo, rapidamente apresentado nos seus avanços,  sem  deixar de questionar sobre os limites (assentamentos de mini-fundiários, sem sustentabilidade).  Os  agentes sociais são mais falados  por meio dos números, do que por suas identidades,  lacuna que poderá ser preenchida por novas pesquisas.
Em meio à crise econômico-financeira mundial e em parte por ela estimulada, teve início uma corrida de países importadores de alimentos em busca de terras agricultáveis de países produtores. Brasil é alvo da corrida com seus 200 milhões de hectares de terras cultiváveis. Desta forma, o assédio por terras para produção de alimentos soma-se à escalada de aquisições, feitas nos últimos anos por investidores e empresas estrangeiros, de áreas para produção de fontes de energia renovável, de expansão da pecuária transformando projetos de assentamento agrícola e reservas extrativistas em áreas de pastagem. No plano econômico o agricultor familiar dos assentamentos é levado a produzir cada vez mais para o mercado. No plano político, a territorialização desse heterogêneo segmento camponês revela rupturas com o modelo clientelista no campo (e nas cidades da Amazônia) como escreveu Alfredo Almeida [3](2005).
            O processo de territorialização conduzido pelos “camponeses” tem paralelo com outras mobilizações sociais e processos sociais de territorialização no Pará. Estas territorialidades específicas são reivindicadas por indígenas, quilombolas, extrativistas e encontram-se em permanente combate com as forças do agronegócio, com forte sustentação política que desenvolvem campanhas de desterritorialização, visando a negação de direitos territoriais reconhecidos na Constituição de 1988.
            Territorialização do Campesinato no Sudeste do Pará, apresentado pelo jornalista Rogério Almeida como dissertação de Mestrado no PDTU/NAEA persegue nas linhas teóricas e metodológicas dos autores que compartilham desse objeto de conhecimento:  Otávio Velho, Jean Hébette, Alfredo Wagner Berno de Almeida,  Octávio Ianni,  Maria Célia Nunes Coelho, Gutemberg  Guerra, entre outros.    A premiação e publicação é também uma contribuição a ser levada e aberta à critica por parte dos movimentos sociais,  desta forma, cumprira sua finalidade precípua. 
 
                                                                                                  [1] ALMEIDA, A. W.   O intransitivo da transição.  O Estado, os conflitos agrários e a violência na Amazônia. 1965-1989.  In.  LENA, P.  e OLIVEIRA, A.   Amazônia,  a fronteira  agrícola:  20 anos depois.  Belém, Museu Paraense Emilio Goeldi, 1991,   (p. 259-290)  P. 283.
[2]  HOBSBAWM, Eric.  Pessoas Extraordinárias.  Resistência,  Rebelião e Jaz.  Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1998.  Cap. XII   P. 241-276
 
[3] ALMEIDA,  A. W. B.  Processos de territorialização e movimentos sociais na Amazônia.  In.  Campesinato no século XXI:  Possibilidades e condicionantes do desenvolvimento do campensinato no Brasil.   In.  CARVALHO, H. M. (Org.)  Editora Vozes,  Rio de Janeiro,  2005.   P. 84-92.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sudeste do Pará - Livro recupera momentos da luta pela terra do século passado

Territorialização do campesinato no sudeste do Pará, dissertação laureada com o Prêmio NAEA\2008 recupera 20 anos da história recente do campesinato da região, considerada uma das mais tensas na luta pela terra do país. 
 
O livro de Rogério Almeida será lançado no dia 01 de maio, às 19h, no estande do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA\UFPA), durante a Feira Pan Amazônica do Livro. 
 
A pesquisa foi orientada pela Dra Rosa Elizabeth Acevedo Marin, e teve a avaliação dos doutores Gutemberg Guerra e Maurílio de Abreu Monteiro. Uma banca de examinadores externos indicou o trabalho para publicação.
 
A segunda  dissertação selecionada para publicação foi  Brazilian Migration to Guyana as a Livelihood Strategy: a case study approach, de Hisakhana Pahoona Corbin.

A investigação de Almeida recompõe fragmentos do período que compreende os anos 1987-2007. A criação do primeiro Projeto de Assentamento da região, o PA Castanhal Araras, localizado no município de São João do Araguaia constitui  passo inicial do reconhecimento pelo Estado das demandas camponesas no sudeste paraense.

A partir de tal episódio o autor aborda as mediações por que passaram as entidades de representação camponesa, até se afirmar como sujeito econômico, político e social numa área de fronteira na Amazônia. Almeida trata da presença da Igreja Católica, ONG´s, partidos políticos e da própria universidade através do Centro Agro-ambiental do Tocantins (CAT).

A territorialização camponesa iniciada ao apagar das luzes da década de 1980, além da dimensão física registra a construção de representações políticas e institucionais.  Tais como a efetivação de uma regional da FETAGRI, o MST e a recentemente criada Federação dos Trabalhadores Rurais na Agricultura Familiar (FETRAF).
 
Trata-se de uma cidadania conquistada e não concedida, que ultrapassa os limites da mera análise física da reconfiguração da região.

Rogério Almeida percorre a região desde 1997 e entre os anos 1999 a 2003 foi vinculado ao Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria Sindical e Popular (CEPASP), ONG com sede em Marabá, coordenada pelo educador Raimundo Gomes da Cruz Neto, onde prestou serviço de assessoria.

Territorialização do campesinato é o terceiro livro de Almeida. Em 2006 lançou a obra Araguaia-Tocantins: fios de uma História camponesa, coletânea de reportagens sobre o Bico do Papagaio, norte do Tocantins, oeste do Maranhão e sudeste do Pará, pela rede Fórum Carajás.
Em 2008 colaborou como pesquisador e organizador do conteúdo de uma publicação da ONG do Baixo Tocantins, Associação Paraense de Apoio às Comunidades Carentes (APACC), que retrata a experiência em agroecologia no entorno de Cametá.  

Com financiamento do Banco da Amazônia lançou no fim do ano passado Pororoca pequena: marolinhas sobre a(s) Amazônia de Cá.
O autor tem produzido materiais jornalísticos e acadêmicos e integrado equipes na organização de conteúdos sobre a região de Carajás.  Sempre que pode atualiza o blog Furo e escreve para a Agência Carta Maior.
Serviço
Lançamento do livro Territorialização do campesinato no sudeste do Pará
Feira Panamazônica do Livro
Estande do NAEA-UFPA
Hora- 19h