domingo, 5 de abril de 2020

Em plena tragédia do Covid 19, governo planeja expulsar comunidade quilombola no MA. Matéria de Ed Wilson explica o caso


As frações de classe que hegemonizam o comando do (des) governo nacional não nutrem o menor respeito pelas populações indígenas e quilombolas. O fato já foi materializado em inúmeros discursos, em nomeações para cargos estratégicos de representantes dos setores mais conservadores da sociedade.


O governo é uma ameaça à reprodução das comunidades indígenas, camponesas e quilombolas em todo o país. O fato mais recente reside na medida em expropriar quilombolas no município de Alcântara, no Maranhão, por conta da expansão da Base de Lançamento de Foguetes, em plena tragédia da Covid-19.
 O jornalista e professor Ed Wilson examina  o caso em Matéria de seu blog.

Em um momento em que ninguém esperava, sai uma resolução dessa e as pessoas ficam aflitas, nervosas, chegando até a adoecer – Dorinete Serejo, moradora da comunidade Canelatíua e coordenadora do Movimento dos Atingidos pela Base Espacial de Alcântara (Mabe). Leia a íntegra AQUI


sexta-feira, 3 de abril de 2020

Nova Correnteza



Para que serve a poesia, senão paga nem o pão ou a cachaça?
É a poesia uma danação do capeta a perturbar oco da cuca em dias de tese?
As rimas, aqui, mal ajambradas podem ser consideradas poesias?
Só sei que a culpa inspiratória é da horda de poetas do Poeme-se, São Luís/MA.
Como se diz por lá: tô nem aí.

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Correntezas




A poesia não serve para nada. Nem para pagar o pão, mas, faz-se necessária como alimento para alma, ainda que o céu não esteja favorável a brigadeiro. 

O par confinado em Marabá, T.C. Esteves e R. Almeida, vez em quando, em intervalos de escritos de tese, xodós, bulinações, danações, fornos e fogões, rusgas e afetos parem versos.

Milton Rocha assina a colagem. Tem abrigo em Belém. Mirian Menezes, radicada em Santarém fez a diagramação.

A soma gerou o cartaz que denominamos de Correntezas, que seja de axé diante de dias marcados por profundas incertezas. 

Na cidade de São Luís existe um grupo poético chamado Poeme-se. Ele produz zines, saraus e cartazes de poesia. Ele é a  inspiração. 

sexta-feira, 27 de março de 2020

Crimes da Mineração em Barcarena/PA - UFPA/NAEA disponibiliza livro


Foto: Pedrosa Neto/Amazônia Real

Recursos naturais em abundância, energia barata e subsidiada, cessão de terras públicas, frágil controle social, renúncia fiscal, farta mão de obra barata e de baixa escolaridade, ineficiência no monitoramento e na fiscalização ambiental (cumplicidade?), além de os generosos financiamentos públicos são alguns dos fatores que concorrem para a presença de grandes empreendimentos na Amazônia, onde o setor público financia o saque privado.  

Há pelos uns 30 anos o município de Barcarena, ao norte do Pará, coleciona processos de expropriação e crimes de toda ordem por conta da instalação de um complexo industrial da cadeia do alumínio – Albras-Alunorte-, bem como da francesa Imerys, que explora o caulim.

Tempos em que o controle acionário era exercido pela mineradora Vale, quando a mesma ainda atendia pela alcunha de CVRD, antes de ser entregue ao capital especulativo no ano de 1997, mesmo ano da instalação da Lei Kandir, que amplia o faturamento das empresas por conta da isenção fiscal pelo não recolhimento do ICMS, o que fere de morte os estados exportadores de commodities.  

Sobre os crimes que se sucedem em diferentes da mineração por todo o Brasil, já em 2010, o coletivo Justiça nos Trilhos, alertava para a eminência de rompimentos das barragens de rejeitos.

Com reconhecimento nacional e internacional de mais de 30 anos de atuação, o Núcleo de Altos Estudos da Amazônia (NAEA), da UFPA, acaba de disponibilizar o Dossiê Desastres e Crimes Ambientais da Mineração em Barcarena.  O documento foi lançado em janeiro, em Belém. 

A apresentação do livro esclarece que o mesmo resulta além das dinâmicas que regem a produção acadêmica, da necessidade em subsidias os movimentos sociais do município no enfreNtamento com as grandes corporações. 

Aqui reside uma ironia: o complexo Albras-Alunorte, hoje é controlado pela norueguesa Norsk Hidro, cujo país é/era o país que mais contribuía com o Fundo Amazônia.

O dossiê agrupa 20 artigos articulados em quatro seções: I – Desastres socioambientais provocados pela mineração; II – Barcarena: sucessão de desastres socioambientais; III – Barcarena: sucessão de outros desastres socioambientais e IV – Mariana e Brumadinho: desastres e crimes da mineração em MG. 
A obra que pode ser baixada gratuitamente, conta com contribuição de pesquisadores de várias partes do país, onde podemos realçar Minas Gerais, Bahia, São Paulo, Amazonas e Maranhão. 

Interessante o cotejamento que faz com relação aos projetos portuários. Os mesmos integram a cadeia de commodities na Amazônia, e representam um dos itens de logística do projeto Arco Norte, que pretende além de portos, a edificação de modal de transportes (rodovia, hidrovia e ferrovia) e edificação de inúmeras hidroelétricas de diferentes tamanhos.

A energia é um dos principais insumos da cadeia do alumínio. Na década de 1980, a hidroelétrica de Tucuruí, no sudeste do Pará, foi erguida no bojo do Programa Grande Carajás, com a finalidade de atender a demanda de Barcarena e São Luís, no caso, a estadunidense Alcoa. Energia subsidiada pela sociedade nacional.

Um dos artigos dá relevo ao caso de disputa territorial entre comunidades tradicionais de São Luís, na peleja contra o grande capital na comunidade de Cajueiro. Sublinhe-se ainda a seção dedicada aos crimes ocorridos pela Vale em Minas Gerais, Mariana e Brumadinho.  

A experimentada professora Edna Castro e um egresso do NAEA, Eunápio do Carmo assinam a organização da obra.
Baixe a obra AQUI

terça-feira, 24 de março de 2020

Planalto Santareno: notas sobre um visita em Ipaupixuna

Foto: caminho para Paupixuna
Cazula é sobrenome de ascendência Italiana e lusa, conta dona Irani, que vem a ser a mãe de Leandro, este professor de Geografia da UFOPA.  Os ancestrais da família baixaram em terra brasilis ao apagar das luzes do século de XIX, cuja missão consistia em substituir o braço escravo de África na cultura do café em solo paulista. 

Dava-se assim a origem ao colonato, como explica José de Souza Martins, em  Cativeiro da Terra. Tão explorados, quanto aqueles, os migrantes europeus ajudaram a operar a máquina da cadeia do café, esta responsável processo de “modernização” do país.

Martins dispara que a racionalidade do trabalho do colono continuou a ser a mesma realizada pelo escravo, mudando somente a forma de organização social do trabalho, do trabalho coletivo do eito, para o trabalho familiar.

A migração subsidiada pelo Estado colaborou na conformação na nova mão de obra, e consequentemente, no cálculo capitalista da produção cafeeira, que antes residia no tempo de vida do escravo, este considerado como capital fixo na contabilidade da época. O escravo integrava o patrimônio. O Museu do Migrante, localizado em São Paulo, evidencia parcela da história.

Irani baixou Santarém outro dia. Leandro a levou para conhecer o povo Munduruku do planalto.  Visita mediada pelo cacique Manoel da aldeia Ipaupixuna. Ela faz fronteira com o território de remanescentes de quilombolas do Tiningu.  Aproximadamente, uns 40km de lonjura da sede do município. 

O planalto sofre influência do mundo das águas do rio Amazonas e do Tapajós. Ali abundam igarapés, furos e rios, e o formoso Lago do Maicá, objeto de disputa e saques de diferentes frentes. Açaí, pescado, floresta secundária ajudam na composição da várzea.

A missão consistia em levar uns canos para dá vazão à água do poço da comunidade, que irá alimentar um roçado. No caminho apanhamos uma boia para o almoço. Um cadinho de carne. A recepção para a dona Irani foi a melhor possível.

A senhora assaltou acerola no meio do caminho, degustou da refeição produzida pela indígena Graciene, provou da pupunha, iguaria que não conhecia. Trocou prosa, tomou café.  Os distantes mundos não pareciam estranhos.

Talvez aproximados pela dor e agruras pretéritas, soavam antigos parentes.  Não foi possível provar do açaí, nesta época do ano, rareia. Nas aldeias e quilombos, o tempo passa desaperreado. As crianças correm desinibidas pelo chão de terra, despreocupadas com a dinâmica dos ponteiros dos relógios dos não índios. 

sábado, 21 de março de 2020

Crônica do trecho em tempo de crise e cheia de rios


Orla de Santarém-PA

Antônia beira a casa dos 60 invernos. Padece de hérnia de disco. Tem um joelho bichado. É uma senhora de estatura mediana. Boleada, com se diz por aqui. Maranhense de Bacabal, lá no meiâo do estado. Bacabal é uma cidade marcada pela pecuária.

Aportou no garimpo de Água Branca, no município de Itaituba, no oeste do Pará na década de 1980. No auge do garimpo. Não tardou, correu para Alenquer, até alcançar Curuá. Todas são cidades irrigadas pelo caudaloso Amazonas.

A senhora é mãe de cinco filhos, sendo duas mulheres e três homens. Somente um dos rapazes mora com ela. Anda meio avoada da cabeça depois de uma temporada na capital do Amazonas, onde moram as meninas. O tratamento é realizado com o guia espiritual. A proximidade com Manaus colabora com o processo migratório. A viagem de barco dura três dias.

Antônia viajou quase dois dias. Cortou o estado de oeste ao sudeste para encontrar outra parcela da família, que mora no município mineral de Parauapebas. Foram umas cinco horas de barco, e perto de dia e meio na BR 163, na Transamazônica [BR 230], e a PA 150.

É tempo de chuva. No percurso é comum peões a fazerem gambiaras em pinguelas (pontes de madeira). E como tem pinguela no trecho. Bem como caminhões quebrados. No perímetro do município de Placas, no oeste, e em Novo Repartimento, no sudeste o número era expressivo.

Amazônia. Terra de migrante. Terra de peão de trecho. Em Uruará, no oeste no Pará, uma escola faz referência ao fenômeno: Escola do Migrante. A cidade é conhecida pelo tráfico ilegal de madeira. Uma rodovia foi erguida para a missão, a Transuruará.

A circulação de ônibus ainda não foi suspensa no estado. Por conta da crise do Covid 19, as empresas estão fazendo descontos de até 30%.  Com receio do fechamento das rodoviárias, o número de pessoas era expressivo no ônibus que fez o trecho Santarém-Marabá.  1.200km. Estima-se que somente uns 400 km com asfalto.

Antônia faz a viagem para o enterro do pai. Enfermo há mais de três anos. Ela conta que ele era bravo.  Beliscava e chutava o cuidador quando da hora do banho.

Tempo de chuva. Tempo de água grande. Na cidade de Marabá o rio Tocantins desabriga moradores em vários bairros. Mesmo os idosos do asilo São Vicente foram para abrigos precários montados com compensados.

Bairros da Liberdade, Carajás e São Félix estão entre os impactados pelas águas do Tocantins. No abrigo montado na área da Colônia de Pescadores, Z-30, na frente do Núcleo Cidade Velha, na frente da cidade, as águas expulsaram os desabrigados pela segunda vez.


quarta-feira, 18 de março de 2020

163, BR


163
Galáxia da fronteira
Encruza sem delicadeza
Star Wars vira brincadeira
Mad Max, Blade Runner
Cuipiranga
Jesuíta não planta bananeira
Maró, morou, mano?
Tresoitão, ponto 40, peixeira
Branco, saque, madeira
Maicá, Arapiuns, Lago Grande
Eixo Forte
Front
Viatura, patrulha, milícia
Canoa, bajara, balsa, embarcação
Camionetes, caminhões, carretas e cilos
Milhões
Fogo, floresta, trama, cadeia
Grilo
Notas a nódoa no traje da nata grã-fina?
Ultraje, vingança
Sertão, droga, cacau, ouro, grão
Óbidos de Souza
Onça, paca, pataca, pepita, peteca, pepeca, potoca, vintém, cruzeiro, real, yen
Bolsas sem valores
Especulação, altar, Alter e o chão
Mercadão, pintado peixe, ervas, mandigas
Mendigos
Multidão
Tristeza ao tucupi
É vero, Veríssimo!
Farol, Faro, Aveiro, Ford, farinha
Esperança a ver navios
Pimenta, coentro, cheiro verde
Mestiço, indígena, povo preto, açaí
Campos de lamparinas movidas a Vinagre
Rio de insurreição a correr por ti
Estiva
Conceição
Chico e Raimundo.

Rogerio Almeida, STM, março/2020

terça-feira, 17 de março de 2020

Poema para a Pérola do Tapajós


Foto: Marquinho Mota. Orla de Santarém/PA/2020

O esgoto corre a céu aberto, independente da existência de meio fio ou não. Corre sob um céu de fim de tarde de fazer inveja a Van Gogh.  O fio de esgoto percorre toda a cidade. Como se fosse a veia aorta. O que lhe confere vida. O que lhe é essencial. Naturalizado em sua existência, não provoca indignação entre os nativos, ou estranhos de além riomar. Mesmo perplexidade ante uma exuberante riqueza natural. O esgoto singra quebradas e o centro. Afronta rodovias e vicinais. Irriga fronts de casebres, de puteiros, das quitandas, dos botecos, de peixarias, dos palácios, dos parcos museus, dos templos, das tendas e das catedrais, quarteis até. O odor exala.  Casagrande e Senzala. O coração da cidade. Um poema sujo contemplado pelas garças mocozadas sobre as mangueiras da encruza da urbe. Garças que untam as passagens com as suas cagadas, e as tornam neve. Passagens onde urubus saqueiam vísceras dos sacos de lixo para a sua sobrevivência, como se matilha de cão fosse. Pérola cidade, deixa-me viver, que eu quero aprender a vossa poesia, por entre canoas, bajaras, barcos, navios e iates nos riomares das suas melancolias e desigualdades. Tempo de manga. À av. Presidente Vargas, forma um tapete, este vigiado pelos olhos fofoqueiros dos velhos das janelas e das portas das casas. Enquanto os pés inchados a tudo vigiam. 

Rogerio Almeida, STM, março/2020

sexta-feira, 13 de março de 2020

Bilhete no papel de pão



Docinho....a missão de achar o livro sobre conceitos de Geografia foi quase um fracasso total. No entanto, algum logro teve a operação. Nos interstícios por entre as caixas de livros, traças, carapanãs, aranhas, morcegos e outros bichos deparei-me com o pano da cozinha. Aquele perdido há dias. Comunico que ao mexer na rede de cor encarnada sangue de briga, achei a camiseta sumida. Aquela pela qual nutro um imenso xodó, apesar de todos furos que ela abriga.Aquela pela qual andei macambuzio. ...Agora falta apenas o pacote de sabão de coco...bjs

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

Luta pela terra no Pará: mataram mais um, até quando?


No mês que soma mais um ano da execução da irmã Dorothy, execuções de dirigentes continuam a assombrar o Pará



“Mais um” é a expressão mais recorrente quando se anuncia a execução de pessoas envolvidas na luta pela terra ou pelejas semelhantes (meio ambiente, direitos humanos, moradia, etc).

O fato se repetiu quando do anuncio do assassinato do dirigente sindical Raimundo Paulino Silva, “Paulinho do PT”, morto com um tiro na cabeça na manhã de momo do dia 22, no município de Ourilândia do Norte, sudeste do Pará. 

Paulinho animava ocupações de terras griladas, era ligado à Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Pará (Fetagri), chegou a ser eleito vereador pelo PT. Ele liderou a ocupação da fazenda 1.200, que registra pelo menos três mortos.

No processo de luta pela terra na região, no início dos anos 2000, os movimentos sociais do campo conseguiram furar o cerco político e eleger inúmeros vereadores, vice-prefeitos e mesmo prefeitos na região.

Naquele momento, os movimentos sociais do campo da região conseguiam mobilizar até 20 mil pessoas em frente a sede do INCRA, com sede em Marabá.

Este fato ladeado pela ocupação de assentos em vários conselhos e a presença nos debates em universidades é avaliado como extremamente representativo no ambiente da frágil democracia nacional, onde o setor rural concentra amplos poderes, ainda mais na conjuntura atual, marcada pelo obscurantismo de toda ordem.

Sul e sudeste do Pará - A região é célebre em assassinatos de dirigentes, assessores e afins envolvidos na luta pela terra, meio ambiente e direitos humanos. Ela é considerada como a que mais mata pessoas no país nesta modalidade de conflito.

A coerção privada e pública é um dos elementos que integram o processo de violência estrutural que historicamente marca a expansão da fronteira do capital sobre as terras da Amazônia. O marco histórico é a instalação da ditadura civil-militar, que cimentou a integração subordinada da região a partir das rodovias, o acesso a terras e as riquezas da região.

O sul e sudeste do Pará representam uma fronteira agromineral.  O estado de exceção incentivou a pecuária extensiva, a geração de energia (hidroelétrica de Tucuruí) e a mineração. Em disputa temos tanto a terra, quanto o subsolo.  O que torna mais complexa as situações de conflito, que além de camponeses, envolve indígenas. 

Ourilãndia (autoexplicativo) materializa este contexto. A região abriga tanto empreendimentos do campo mineral, quanto grilagens de terras, expansão da soja e concentra o maior rebanho de gado país, no município de São Felix do Xingu. Concomitantemente, onde mais se desmata na Amazônia.  

Soma-se ao cenário a fragilidade no processo de investigação, quando o mesmo chega a ser instaurado, a morosidade/parcialidade na Justiça e a limitada cobertura midiática, para não falar de deturpada.

Os representantes dos movimentos sociais tendem a realçar nesses casos o caráter seletivo nas execuções, onde os/as dirigentes mais articulados passam a ser o alvo por excelência de grileiros e latifundiários.  

Para citar um caso, lembremos a execução de José Dutra da Costa (Dezinho), assassinado em Rondon do Pará, na porta da própria casa, em 2000.  

Isto tudo motivado pela máxima da impunidade que impera como regra nestes casos. Os indicadores da Comissão Pastoral da Terra (CPT) retratam bem o ambiente. Vale realçar os crimes contra o povo Guajajara, o povo Guarani kaiowa, bem como as ameaças contra quilombolas em todo o território nacional. 

A expressão “mais um” externaliza a naturalização/banalização dos crimes que amiúde se reeditam em terras do Pará. Às vezes, mesmo entre dirigentes e apoiadores das lutas populares no campo amazônico ela escapa de forma involuntária, acompanhada de um “até quando?”.  

Rogerio Almeida acabou de lançar o livro Amazônia (s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis. A obra pode ser baixa gratuitamente.

sábado, 8 de fevereiro de 2020

Amazônia(s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis - em textos curtos e carregados em dados, o livro é um registro gestado direto do front amazônico


53 artigos do educador Rogerio Almeida, distribuídos por cinco seções dão alma e tutano ao livro gestado e produzido fora do eixo


Bispo do Rosário – Educador
Um conjunto pulsante de relatos colhidos direto do front, o livro Amazônia (s): pequenas inflexões sobre grandes abacaxis reúne 53 artigos agrupados em cinco seções i) Amazônia, ii) Nas terras dos Carajás, iii) Caso Dorothy, iv) Comunicação em pauta e v) Licenças nem tão poéticas.

A obra é uma produção da Editora Iguana, originada no sudeste do Pará. Obra e editora são iniciativas fora do eixo. Um intento alinhado à vida dos segmentos historicamente marginalizados. Um sopro de denuncia, urgência, ternura e poesia conferem ao livro certa unidade.

Assinada pelo educador Rogerio Almeida [Universidade Federal do Oeste do Pará], boa parte do conteúdo tem como origem uma coluna no site do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (IBASE), ONG com sede no Rio de Janeiro, fundada pelo sociólogo Betinho [Herbert de Souza].

Em textos curtos, carregados em dados, algumas inflexões acadêmicas untadas por doses de ironia, o autor narra as disputas pela terra no Bico do Papagaio (sul do Pará, norte do Tocantins e oeste do Maranhão), e outros fronts. Os alinhavos contemplam a saga de camponeses em defesa de seus territórios, bem com as pelejas da categoria com a mineradora Vale, e questionamentos sobre a parcialidade e as limitações da mídia ao tratar temas complexos na Amazônia.

Os escrevinhamentos ligeiros de Almeida contextualizam as violências protagonizadas por fazendeiros, madeireiros, jagunços, pistoleiros e órgãos de segurança e a parcialidade do judiciário nestas tramas. Este, - via de regra - célere em expedir medidas de reintegração de posse, e, moroso em apurar chacinas e execuções de camponeses e seus apoiadores.

Apesar da região do Bico do Papagaio configurar o principal ambiente do conjunto de textos, constam inquietações sobre o Baixo Tocantins, Baixo Amazonas, Belém e São Luís, e algumas licenças poéticas [pura pretensão] fora do esquadro das disputas territoriais e simbólicas que cercam a região.

Algumas narrativas alumiam intervenções das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e Comissão Pastoral da Terra (CPT), e sobre o caso do assassinato da missionária Dorothy Stang.   Ao lado do Movimento de Educação de Base (MEB), as CEBs e a CPT encarnaram a santa trindade da fração da Igreja Católica aliada à luta camponesa. Prática que iniciativas como a encíclica  Laudato si e o Sínodo Pan amazônico buscam recuperar.

Os dias manifestam-se tensos na fronteira amazônica. De novo, no front, tem-se o aprofundamento da hegemonia dos setores mais retrógrados da sociedade nos mais variados campos. Em ações marcadas pelo obscurantismo, a aversão à educação, à cultura e à arte, onde frações de classe ameaçam as parcas conquistas consagradas na Constituição de 1988, em franco discurso de ódio a indígenas, quilombolas e campesinos, entre outros.

É tempo de resistir, como realça o artigo que trata do Boletim Resistência, periódico editado pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), em tempos sombrios, na capital do Pará.

Sobre o autor
Rogerio Almeida é maranhense de São Luís/MA. É devoto do samba, maracatu, jongo, ciranda, tambor de crioula e outras manifestações de matriz africana. Possui graduação em Comunicação Social pela UFMA. Cursou especialização e mestrado em Planejamento do Desenvolvimento pelo NAEA/UFPA. Atualmente cursa doutorado em Geografia Humana, DINTER USP/UNIFESSPA/UFOPA e IFPA. É professor do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA).

Baixe AQUI

terça-feira, 14 de janeiro de 2020

Diálogos Essenciais: iniciativa do Sindifisco PA inova em ocupar as redes sociais com conteúdo de excelente qualidade


No ar  desde novembro, o programa inova em profissionalismo e qualidade

Fonte: site do Sindifisco/PA

Diálogos Essenciais é uma iniciativa inovadora em comunicação popular do Sindicato dos Servidores do Fisco do Estado do Pará (Sindifisco). Produzido com esmero e profissionalismo, o Diálogos tem como missão a promoção de um debate público sobre temas relevantes que afetam toda a sociedade.


Ancorado pela experiente jornalista Renata Ferreira, o programa vai ao ar semanalmente nas redes sociais (Youtube  e Spotify) desde novembro. Ele inova pelo menos em dois níveis. Primeiro com relação à produção profissional e o segundo com pautas que ultrapassam as cercas da corporação sindical, e correntes partidárias do campo da esquerda.


No conjunto de tema já debatidos constam: meio ambiente, reforma da previdência, Lei Kandir, serviço público, educação fiscal e reforma tributária.  Entre os debatedores podem ser encontradas autoridades reconhecidas do estado, como Charles Alcântara, presidente da Federação Nacional do Fisco Estadual e Distrital (Fenafisco), o jornalista Lúcio Flávio Pinto, a professora Edna Castro, e mesmo expressões nacionais, a exemplo da Maria Lucia Fattorelli, coordenadora da ONG Auditoria Cidadã da Dívida.

Para efeito de sugestão de pautas, seria interessante contemplar temas caros ao Pará, como é o caso da questão agrária, questão indígena e quilombola, violência no campo tendo como linha de frente no debate os sujeitos historicamente marginalizados e alijados de voz. E, ainda a violência policial recorrente na capital, as condições precárias dos bairros, a cultura a partir de seus produtores, a comunicação pública e popular.

À primeira vista, a louvável ousadia do Sindifisco retira o tema comunicação do fundo da sede do sindicato, - como comumente é tratado o assunto no campo popular - e coloca em primeiro plano, com a devida atenção estratégica que a mesma exige num cenário de aguda disputa no universo simbólico eivado por notícias falsas.

Antônio Catete, presidente do sindicato, esclarece que a “iniciativa do Sindifisco Pará  aposta em um novo projeto de comunicação para discutir os desafios do estado brasileiro e qualificar os debates sobre os serviços públicos e outros temas. Quanto mais informação de qualidade disponível, maior o indicador de cidadania de todos”.

Abaixo os links das redes do programa. 





quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Vice governador do Pará é denunciado pelo MPF por participação em organização criminosa e lavagem de dinheiro

A organização criminosa concentrava a maior parte das suas operações com o desvio de recursos da merenda escolar 



O Ministério Público Federal (MPF) denunciou à Justiça, nessa quarta-feira (8), o vice-governador do Pará, Lúcio Vale, por integrar organização criminosa que desviou R$ 39,6 milhões de dez municípios paraenses por meio de fraudes em licitações entre 2013 e 2017, principalmente com o uso de empresas de fachada. A maior parte dos recursos deveria ter sido destinada à compra de merenda escolar. Também foram identificados desvios de recursos da saúde e da assistência. Leia mais AQUI

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Fazendeiro tenta matar esposo de professora da UFPA em Altamira/PA


Armado e com jagunços, o fazendeiro Silvério Fernandes invadiu restaurante e atenta contra a vida de esposo de professora da UFPA em Altamira/PA

O fazendeiro Silvério Fernandes atentou contra a vida de Eduardo Modesto, esposo da coordenadora  do campus da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Altamira,  a professora Maria Ivonete Silva. O caso ocorreu em um restaurante no município de Altamira, sudoeste do estado, na noite de ontem, 17.

Armado e acompanhado por jagunços, o fazendeiro agrediu o esposo da professora. O mesmo grupo já havia invadido o evento Amazônia Centro Mundo, ocorrido em novembro, com vistas a promover balbúrdia e sabotar o encontro. Leia matéria da Agência Pública AQUI

Um professor da associação de docentes da UFPA informa que mesmo diante dos policiais o fazendeiro atentou contra o marido da educadora.  O casal registrou boletim de ocorrência. Fernandes ficou detido por alguns instantes, e em seguida foi liberado. 

A família Fernandes chegou a ser investigada pelo assassinato da missionária Dorothy, e é suspeita em articular a prisão do agente pastoral de Anapu, o padre Amaro, da Comissão Pastoral da Terra (CPT). 

A mesma associação de professores denunciou recentemente que o grupo de fazendeiros ameaça agricultores no município. Leia nota do ANDES AQUI

Ódio como ordem
Ódio é a bandeira mais elevada do governo federal. Ódio á indígenas, quilombolas, camponeses, LGBT, à educação, cultural, à alegria, ao carnaval, ao funk, ao povo preto e pobre, à diferença e ao contraditório.  

Os discursos e ações do governo como relação ao mundo rural representam uma licença para matar. Isso tem se expressado com a invasão de terras indígenas, quilombolas e camponesas.

E ainda com relação aos assassinatos de indígenas do povo Guajajara no estado do Maranhão, ao assalto à casa da liderança do Munduruku, Alessandra Korap, em Santarém, no oeste do Pará.

Plano Diretor de Santarém/PA: obra ilumina processo de revisão que favoreceu grandes empreendimentos no município.

Há um ano o Legislativo e o Executivo  desrespeitavam a decisão da assembleia de revisão do Plano Diretor da cidade em favor do agronegócio 

Capa do livro organizado pela UFOPA em parceria com os movimentos sociais do município 

Faz um ano que ao melhor estilo dos subterrâneos de Chicago dos anos 30 do século XX, o legislativo municipal de Santarém, no oeste paraense, cometeu o crime em não respeita a decisão da assembleia consultiva da revisão do plano diretor da cidade.

Decisão que contou com o não menos indiferente às leis, o prefeito Nélio Aguiar. O crime foi cometido ao apagar das luzes do ano passado. Momento onde a maioria dos segmentos que vigiava os poderes estava a organizar os seus recessos e avaliações.

As tramas para favorecer setores da especulação imobiliária e do agronegócio foram inúmeras. Insignificante publicidade sobre as reuniões e a assembleia. Mudança do local da assembleia final com vistas a driblar a participação dos setores que defendem a reprodução econômica, política, social e cultural dos povos tradicionais.

Artigos, trabalhos de conclusão de curso registram o enredo.  Realço aqui a obra A luta pelo direito à cidade na Amazônia: o processo de revisão do Plano Diretor de Santarém. a obra resulta do projeto de pesquisa coordenado pela professora Beatriz Reis, do Curso de Gestão Pública e Desenvolvimento Regional da UFOPA. 

Além da professora, aprovada em seleção de doutoramento na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), assina a obra o discente/bolsista Yuri Rodrigues.  Leia o livro AQUI

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Foragido: justiça caça fazendeiro miliciano de Marabá/PA

Acusado pela formação de milícia, o fazendeiro Marcos Antônio Fachetti Filho está foragido. 


Fotos: enviadas pelo MPF
Ele e o pai, que foi preso, são acusados de organização de milícias contra camponeses de Marabá.  As denúncias podem encaminhadas para o seguinte contato do MPF: 181 ou  (94) 3312-0200, Saiba mais sobre o caso AQUI

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Execuções de indígenas espelha o projeto de morte que representa o governo brasileiro para os povos da floresta

Três guardiões da floresta do povo Guajajara foram assassinados no MA 


“O projeto do governo é um projeto de morte para os povos da floresta, para os indígenas, quilombolas e ribeirinhos”, alertava Alessandra korap, indígena Munduruku, por ocasião de um dos diversos debates que tomam a agenda na Universidade Federal do Oeste do Pará (UFOPA), onde cursa Direito.  Recentemente a indígena teve a casa assaltada e o seu computador levado.

A avaliação da guerreira indígena tem se materializado de diversas maneiras durante esses meses de desmandos do governo. As execuções dos indígenas Guajajara, concessão da base de lançamento de foguetes de Alcântara para exploração dos EUA, - ambos os casos no estado do Maranhão -, o assassinato de Emyra Waiãpi, no estado do Amapá, o esvaziamento e desmantelamento de instituições que tratam da questão agrária, indígena e quilombola cimentam um caminho em oposição às pautas dos povos da floresta.

Nesta sombria aquarela despontam ainda o aumento do desmatamento na Amazônia, a demissão do pesquisador do INPE, Ricardo Galvão e a nomeação de militares para chefias de cargos como  Funai. Sublinhe-se ainda o circo midiático montando em torno  de “nebulosa” investigação policial, que resultou na prisão dos brigadistas da reserva de Alter do Chão, no município de Santarém, no oeste paraense e o discurso preconceituoso contra indígenas e quilombolas do procurador do estado do Pará, Ricardo Albuquerque.  

O quadro nebuloso é composto ainda por um conjunto de medidas no campo jurídico que tende a extinguir ou fragilizar algumas garantias efetivadas na Constituição de 1988. A permissão para que fazendeiros possam andar armados, concessão de mineração em territórios dos povos tradicionais, azeitamento do processo do já frágil  licenciamento ambiental em nome da “segurança jurídica” para o mercado integram um pacote de mediadas que visa beneficiar a base rural de apoio ao governo, ladeada pela bancada fundamentalista religiosa e a da bala e a “indústria” de notícias falsas.

Em síntese, de diversas formas, o governo acena a seus aliados uma concessão para matar, para indiferença às leis, como no caso ocorrido em Novo Progresso, também no estado do Pará, onde fazendeiros organizaram um incêndio. A trilha de violência conta ainda com ataques frontais a servidores públicos dos órgãos de fiscalização da área ambiental e afins, onde queima de veículos públicos e ameaças fazem parte do modus operandi de madeireiros, fazendeiros e grileiros.     

É notória a condição colonial da Amazônia na trama da economia mundo. Ocorre que nos dias atuais, sob o signo do medo, esta respira o bafo da fúria, e se exacerba sob o manto do discurso do ódio e da intolerância.

O capital em terras nacionais é uma parada de sucesso. Desde sempre expropria, mata e saqueia as riquezas que cá abundam. Páginas e mais páginas registam a saga desde  tempos imemoriais. Há sangue de indígenas, quilombolas, e de não indígenas e não quilombolas empobrecidos sobre as batinas, fardas e togas. 

É como expressa o verso do samba da Mangueira deste ano: “Há sangue retinto pisado atrás do herói emoldurado”. E as notícias tristes não cessam de brotar. Uma se sobrepõe a outra, provoca perplexidade e desencanto, sem tempo de processar a mais recente.

A mais recente foi a morte do mototaxista Marcio Rodrigues dos Reis, principal testemunha de defesa do caso da prisão do Padre Amaro. O religioso é agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT), na cidade de Anapu, outra quebrada do estado do Pará, um triste emblema da brutalidade do avanço do capital sobre a Amazônia. Amaro é substituto da missionária Dorothy Stang, executada em fevereiro de 2005.

 

O governo brasileiro deu licença para matar. E desde então, as mortes se amplificam no campo nacional. Em todas as latitudes. No entanto, desde sempre ocorreram insurgências. Aqui cumpre realçar a autodemarcação de seus territórios  empreendidas pelos indígenas Munduruku, a construção do Protocolo Consulta como ferramenta de defesa territorial, a expulsão de garimpeiros e madeireiros de seus territórios, as greves nos canteiros das grandes hidroelétricas na Amazônia, a ação solidária dos indígenas do povo Munduruku do Baixo Amazonas, com os parentes no enfrentamento contra Belo Monte, em Altamira, e a celebração de festivais de diferentes modalidades dos quilombolas.

Uma vez mais, invoco a sabedoria popular na composição do samba da Mangueira de 2019: Salve os caboclos de julho/Quem foi de aço nos anos de chumbo/ Brasil, chegou a vez/De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês/[...] É na luta que a gente se encontra”.

As ameaças contra os povos da floresta continuam. Como a denunciada pelos professores da UFPA, caso ocorrido no município de Altamira/PA. Veja o vídeo AQUI

sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Arqueologia nas escolas: projeto de extensão da UFOPA é laureado com prêmio nacional do Iphan

Premiação ocorreu nesta quinta, 5 de dezembro, no Rio de Janeiro

Coordenado pelas professoras e pesquisadoras Anne Rapp Py-Daniel e Myrtle Pearl Shock, da Ufopa, “Arqueologia nas Escolas” busca disseminar e democratizar o conhecimento produzido por pesquisas arqueológicas realizadas em Monte Alegre e Santarém. Para isso, produziu diversos materiais didáticos que trazem informações sobre o patrimônio arqueológico da região.Leia mais AQUI

quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Quilombo do Bom Jardim/PA realiza I Festival Quilombola como ferramenta de resistência


A doação para as famílias quilombolas data de 1877, conforme documento assinado pelo fazendeiro José Francisco Ferreira

Pelo menos uns 50 moradores trabalharam em sistema de puxirum [mutirão] para colocar de pé o centro comunitário do território quilombola de Bom Jardim, na cidade de Santarém, no oeste do Pará. 


Cenas do Quilombo de Bom Jardim, I Festival Quilombola, Santarém/PA. Foto: R. Almeida

O galpão é uma arquitetura comum nos territórios quilombolas da região. O espaço coletivo é construído para abrigar os festivais, bem comuns em áreas quilombolas, além das reuniões. No caso de Bom Jardim, o galpão [24x14] acolheu a primeira edição do Festival Quilombola do Bom Jardim, comemorado entre os dias 28 a 30 do mês de novembro.

Tijolos, telhas, areia, cimento, madeira e outros recursos para a edificação do prédio resultam de doações e coleta dos próprios moradores. Para alimentar a turma do puxirum, foi usado o mesmo expediente, cada um entra com o que pode: macarrão, feijão, arroz farinha e pinga.  A noite que precedeu o primeiro dia do festival, 28, o grupo varou a madrugada. O quilombo é conhecido com o mais festeiro da região do planalto santareno.

Centro Comunitário construído em puxirum. Fotos: enviadas pela comunidade

Nesta latitude é abundante o fruto do açaí. O extrativismo e a atividade da pesca representam a principal fonte de proteína e renda do lugar, que somados a bolsa família, aposentadorias, pensões e o funcionalismo público colabora na subsistência familiar.

Comércio de comidas típicas, roupas e artesanato, apresentação de capoeira, grupos de danças regionais, festa dançante integraram a agenda dos três dias do festival, que também celebrou os 142 anos do quilombo. 






Riquezas do território quilombola. Fotos: Girlian de Sousa

A referência histórica tem relação com o documento de doação, datado de 1877, realizado pelo senhor de escravos. O fazendeiro produtor de cacau, José Francisco Ferreira atendeu ao pedido de sua esposa, e resolveu repassar as terras para seis famílias de negros que trabalhavam na lavoura do fruto, que marcou época no oeste paraense.

Obras do obidense Inglês de Souza realçam tal período, em particular o Cacaulista.  Os mais velhos do lugar estimam pelo menos em 300 anos a presença de negros em Bom Jardim e arredores, ladeados por indígenas. Nos locais marcados pela presença da terra preta é comum encontrar artefatos pré-coloniais.

As seis famílias iniciais somam nos dias atuais pouco mais de cem, num contingente que beira a casa das 600 pessoas. Joilson Vasconcelos dos Santos, membro de uma das famílias pioneiras, explica que o festival é uma iniciativa em demarcar/reforçar a importância territorial, por conta do cenário de retrocesso do ambiente institucional e político do país.

“Estamos diante de um governo declaradamente avesso às demandas do campo popular, que declarou em alto e bom som a sua oposição às demandas indígenas, quilombolas e camponesas” realça o professor e morador do quilombo.  “A tentativa em emplacar um capitão do mato na direção da Fundação Palmares é mais uma aberração do governo”, emenda o educador.

Na agenda da associação, assim como as demais do município de Santarém, organizadas a partir de uma federação municipal, a principal bandeira de luta reside na titulação da área. O processo soma mais de 12 anos. Os laudos do INCRA já foram realizados e o território reconhecido como de remanescente de quilombo. 

Morosidade na titulação gera tensões no território - A morosidade no reconhecimento territorial tende a criar situações de tensões no território. No caso de Bom Jardim, um deles reside em cultivo de soja dentro da área reivindicada. Narivaldo dos Santos, que preside a associação do quilombo, explica que a monocultura prejudica os moradores, em particular os que estão mais próximos da área plantada, por conta do uso intensivo de agrotóxico. 

Ainda por conta da soja, o produtor tentou fechar uma via usada como atalho pelos moradores. Com relação ao pescado, a tensão mais comum é a pesca predatória por pessoas que não residem na comunidade. A pesca de arrastão, que não respeita os acordos de pesca e as normativas da lei com relação a espessura da linha de pesca de redes e tarrafas.

Para além das fronteiras do quilombo, os moradores explicam que as representações dos setores públicos, em particular do município, sempre criam dificuldades em recebê-los, e até mesmo em protocolar os seus pedidos.  “Na maioria dos casos, nossas demandas só são atendidas por conta da mediação dos ministérios públicos” conta Santos.


Escola da comunidade, grupo de capoeira e grupo de dança. Fotos: Girlian Sousa e comunidade

No caso da educação, os moradores relatam duas situações. Uma relacionada com o problema dos professores da escola em resistirem de participar de reuniões da associação. Bem como com relação ao conteúdo ministrado na escola, que tende a eclipsar a história da luta do povo quilombola.  

A escola do quilombo, rebatizada de Escola Municipal São Pedro, oferece ensino até o 9º ano. Os moradores reclamam da atitude autoritária do governo em mudar o nome da escola de Otávio Firmino dos Santos para São Pedro. O senhor Otávio é um dos pioneiros do lugar e avô do professor Joilson. “Trata-se de apagamento de nossa memória, precisamos rever isso”, comenta o educador.

Outro problema é a merenda escolar, que além de insuficiente, favorece o fornecimento de produtos enlatados, quando a prefeitura poderia incorporar tanto a produção do açaí, como o pescado na dieta da escola. A descontinuidade no fornecimento é outra questão que aflige as famílias.

Educação superior - Ainda no campo da educação, indígenas e quilombolas têm enfrentado inúmeros problemas nos cursos ofertados na Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa).  Henrique de Dejesus, representante dos estudantes quilombolas, pela passagem do Dia da Consciência, informou que um curso da área de exatas da Ufopa não ofertou vagas por avaliar que indígenas e quilombolas não teriam aptidão para cumprir o percurso acadêmico. Para o discente, a medida representa racismo.

Existem ainda situações de atrito com os próprios discentes não indígenas e com professores em sala de aula, que muitas das vezes não compreendem as especificidades da formação dos discentes indígenas e quilombolas, e mesmo a fragilidade do processo de educação dos mesmos.

Na trilha do quilombo - Alcança-se o lugar a partir da rodovia Curuá-Una.   Florestas, experimento de soja, estação de tratamento de lixo, algumas empresas, condomínios, pequenos comércios – aqui tratados como minis-box-, cemitério, inúmeros campos de futebol de variados tamanhos colaboram na composição da feição territorial desta fração do município. Nestas latitudes, não raro, avista-se a placa de: vende-se lote.

Um parêntese. A especulação imobiliária representa um dos fenômenos que se desenvolvem por conta da dinâmica da inserção subordinada da região ao sistema mundo, a partir da dinamização da mesma como um corredor de circulação de commodities. Especulação está que ocorre tanto na zona considerada rural, quanto na área considerada urbana. Em certa medida, as queimadas em Alter do Chão podem ser explicadas a partir desta dinâmica.

O quilombo é um entre os 12 territórios que reivindicam a titulação no município. Em toda região a soma alcança a casa dos 60. Estes territorializados nos municípios de Óbidos, Oriximiná, Alenquer, Monte Alegre e Santarém.  

Muricis, mangas, tucumãs, buritis e goiabas são algumas das farturas encontradas no lugar, além de animais passiveis de caça e as aves. No que tange à caça, tem-se capivara, paca, anta; e entre as aves podem ser encontrados pato do mato, juruti e rolinhas.

 "Gitinhos" no lugar considerado encantado pelos moradores. Foto: Girlian Sousa
 Narivaldo Santos [camisa vede] e prof Joilson Vasconcelos [camiseta branca] com parentes

"Gitinhos" na casa de dona Iracema e  pesquisadores da UFOPA e da USP. Foto: R. Almeida

As crianças do lugar que não conhecem ou não compreendem o processo de luta pelo território ou o significado da escravidão, são doutores com relação ao conhecimento dos recursos que o território é tributário. Elas realizam coleta, pescam, caçam e conduzem com as canoas e bajaras no Lago do Maicá.

Este ameaçado pela construção de um complexo portuário, que integra o projeto Arco Norte, que visa consolidar a região com um grande corredor de exportação de soja. O complexo portuário, estações de transbordo, grandes e pequenas hidroelétricas, além de modal de transporte (rodovia, hidrovia e ferrovia) constam no pacote de grandes obras do governo federal.

Na contramão desta correnteza colonial organizada a partir de grandes obras, os “gitinhos” explicam com maestria a diferença entre a árvore da sapucaia e a castanheira para o estranho. Sabem das trilhas da capivara, dos bichos peçonhentos, aonde as arraias se escondem, como se livrar dos jacarés, das manhãs das estivas [espécie de ponte improvida feita do tronco da palmeira do buruti] para se alcançar o rio.