terça-feira, 11 de agosto de 2020

Baixo Amazona: territórios em conflitos

 As tensões nas aldeias do Povo Munduruku em Jacareacanga por conta da atividade de garimpeiros é uma das muitas situações de conflitos no Baixo Amazonas e vizinhança

Porto da Cargil - Santarém/PA

Porto da Cargil - Santarém/PA

A Amazônia é dos capítulos mais expressivos no pacote de morte e desastre que representa o governo federal para o país, a despeito de um discurso patriota inclassificável, que prima em celebrar o 4 de julho em embaixada estadunidense. Parada de família.

No rosário de bizarrices, a reunião do dia 22 de abril merece destaque, onde o discurso da pessoa que ocupa a cadeira do Ministério do Ambiente é uma espécie de síntese sobre o ponto de vista do governo sobre a região: “precisamos passar a boiada e revisar as normativas enquanto a mídia só fala de pandemia”.  Tem expertise para a missão, fez isso em São Paulo para favorecer incorporadoras.

Mesmo antes de ter vencido a eleição, o sinistro da República já havia declarado em alto e bom som que indígenas e quilombolas não teriam vez em seu governo. A promessa tem sido cumprida com louvor, e a bandeira do racismo, que evidencia o padrão estruturante de poder na sociedade nacional, é hasteada no ponto mais elevado em local de destaque no detrito federal.

Corte de recursos, desautorização de ações de equipes de instituições do cordão de proteção aos povos indígenas, quilombolas e outras categorias que fazem parte da sociodiversidade da Amazônia, nomeação de pessoas desprovidas de qualificação para cargos estratégicos – quando não militares – constam no alguidar de maldades, nas ações de ódio contra o diferente.

A nomeação de gente do quilate de Sérgio Camargo para a coordenação da Fundação Palmares – uma pessoa que nega o racismo no país – noutro extremo um representante da milícia ruralista - ex diretor da União Democrática Ruralista (UDR) - para dirigir assuntos fundiários, Nabhan Garcia, são atos que representam a abertura da porteira para toda ordem de abusos e de licença para matar. As nomeações representam no mínimo, um desvio de função, que o diga o titular da pasta da Saúde, uma verdadeira hecatombe.

No conjunto de abusos vale sublinhar o “Dia do Fogo” organizado por ruralistas em Novo Progresso, e a prisão de jovens brigadistas em Santarém, além da apreensão de equipamentos e documentos da ONG Saúde e Alegria. Fatos ocorridos no Baixo Amazonas, prestes a somar o primeiro ano.

Em dias recentes registra-se ainda a sinalização em defesa de garimpos ilegais em terras indígenas, e a indignação do Planalto pelos setores de fiscalização cumprirem a sua missão e atearem fogo no maquinário ilegal.

No rosário de desgraças tem-se ainda o crescimento exponencial dos indicadores de desmatamento, o congelamento de reconhecimento de territórios indígenas e quilombolas, um pacote de medidas revisionistas que asseguram parcamente tais territórios na Cf de 1988.

Soma-se ainda ao triste quadro da conjuntura atual, a demissão de pesquisadores do INPA, a elevação de assassinatos contra indígenas, bem como incremento das situações de conflitos que mobiliza um complexo xadrez de sujeitos, são alguns dos desdobramentos da opção governista. Soma-se ao quadro um cenário de total esvaziamento de debates dos fóruns sobre a Amazônia e de qualquer política que respeite as populações locais, historicamente violentadas pelo poder do capital sobre os seus territórios.

Neste verdadeiro campo minado de territórios em conflitos, na cidade de Jacarecanga, no Baixo Amazonas do Pará, no microcosmo do povo Munduruku, temos um espelho da complexidade das disputas intra indígenas e a sociedade envolvente, onde constam garimpeiros, grileiros de terras, ambientalistas, missionários neopentecostais e o Estado, representado tanto pelo poder municipal, como a Funai, numa refrega sobre garimpo que já contabiliza algumas décadas nos territórios indígena (TIs) Munduruku e Sai Cinza.

O território que o grande capital alcança, nele germina o conflito, assim como a expropriação, a divisão da comunidade, o rompimento de laços de amizade, solidariedade, o ocaso de ações comunais. Assim como em Jacareacanga, a realidade similar ocorreu/e em Altamira, por conta da hidroelétrica de Belo Monte, e na região em Carajás por conta da expansão da cadeia de mineração.

A criação de novos aldeamentos por conta de disputas entre os indígenas por parcas compensações do processo de expansão do capital é um dos fenômenos verificado em Altamira e em Carajás. Tem-se ainda o alcoolismo dentre tantas mazelas resultante do processo das tensões territoriais.  No caso de Jacareacanga, por conta do garimpo ilegal, provocou um racha entre os indígenas. 

O grupo contrário a presença garimpeira em território Munduruku em nota sobre as situações de tensões argumenta que, “O povo Munduruku não aceita o desmatamento na Amazônia, rios sujos jamais, choramos muito por perdas que são recentes, dois líderes que nos deixaram, o garimpo invadiu as nossas casas, o nosso lar de sobrevivência, trouxe a desunião, drogas que viciaram os nossos futuros jovens Munduruku, é difícil pescar e caçar devido ao aumento do garimpo em nossa região”.

A nota assinada pelas representações indígenas Movimento Munduruku Iperegayu em Ação, Associação das Mulheres Wakoborûn, Coiab e Apib, entre outras, resulta de uma medida tomada por um grupo de indígenas que foi a Brasília defender o garimpo em seu território, e atropelando as representações do povo Munduruku. A ação teve a acolhida do general Mourão, vice presidente, que tal a facção de indígenas garimpeiros, não reconhece as instâncias de organização da aldeia em Jacareacanga.  

“A narrativa que o governo tenta criar é que são os indígenas os interessados na liberação da mineração em suas terras” reflete a antropóloga Luísa Molina. No entanto, para além das interesses, existe um poderoso lobby de grandes corporações.

O Ministério Público Federal (MPF) tem tentado atuar contra a ação dos garimpos ilegais em unidades de conservação e em territórios indígenas, no entanto esbarra na omissão do governo federal. Estima-se que a operação ilegal dos garimpos mobilize por ano entre 4,5 a 5 bilhões.  Leia o documento AQUI

Arco Norte – E, nada é tão ruim que possa ficar pior.  Um conjunto de umas 33 unidades de conservação, inúmeros territórios indígenas, outro tanto de territórios quilombolas, várias modalidades de projetos de assentamentos da reforma agrária, que conformam a representação territorial da região estão em xeque por conta da agenda de desenvolvimento pautada a partir do Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento (ENIDs) sistematizados no projeto Arco Norte, com âncora num projeto em escala continental do projeto Iniciativa de Integração de Infraestrutura da América do Sul (IIRSA).

Como ocorrido nos anos de 1980, quando o Programa Grande Carajás reconfigurou as feições territoriais no estado e outros vizinhos, o Arco Norte, deve encarnar ao equivalente no século XXI a partir de um pacote de obras de infraestrutura, onde são consideradas prioridades a construção de um modal de transporte (rodovia, hidrovia e ferrovia), grandes e pequenas centrais hidroelétricas, complexos portuários, estações de transbordo com vistas a dinamizar corredores de circulações de commodities, grãos e minério em particular.

O caso de Jacareacanga não deve analisado de forma isolada. Ele faz parte de pacote que semeia situações de conflitos em vários territórios da região. Em Santarém, na comunidade de Lago Grande, a Alcoa almeja minerar, ainda no município o capital corrompeu o legislativo e executivo no processo de revisão do Plano Diretor da cidade, e ao contrário da decisão da assembleia do processo de revisão do plano, os poderes votaram pela construção de um complexo portuário na área de várzea do Lago do Maicá.

Ainda em Santarém é sabido e conhecido de todos a exploração ilegal de madeira na região do rio Arapiuns, a mesma “tradição” ocorre na rodovia Transuruará, que liga Uruará a Santarém.  A rodovia é uma verdadeira Disneylândia da exploração ilegal de madeira.

A mesma ação do capital em processo de revisão do plano diretor já havia ocorrido no município de Itaituba, onde as grandes corporações revisaram o plano diretor a partir da angulação de seus interesses, e assim, converteram espaços não mercantilizados ao sistema da economia mundial.

No município vizinho a Santarém, em Rurópolis, pretende-se a construção além de estações de transbordo da cadeia do escoamento do grão produzido no Brasil Central, planeja-se a edificação de um conjunto de Pequenas Centrais Hidroelétrica (PCHs). A opção por PCHs representa uma estratégia em driblar o processo de licenciamento ambiental.  

Situação equivalente marca os dias das populações tradicionais em Oriximiná, cidade fortemente marcada pela presença de remanescentes de quilombos, e que desde os anos 1980 convive com as chagas da mineração, e nos dias atuais, vive sob a ameaça da expansão da atividade e da construção de hidroelétricas.

O Baixo Amazonas, acredito, por conta deste mal traçado cenário de tensões aqui esboçado, pode materializar o que foi a região de Carajás anos de 1980, um campo minado de situações de conflitos, pilhagem, execuções de dirigentes, assessores, simpatizantes e pesquisadores.

 

 

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Raimundinho do Cepasp, 67 anos de vida, boa parte nas lidas da fronteira

 O educador Raimundinho é um testemunho vivo do avanço do grande capital sobre as fronteiras amazônicas. 

O mar da história é agitado. Cheio de ameaças e guerras. E, vez em quando, os fatos põem o mundo de pernas para o ar. Colocam tudo em suspenso. É pandemia, é a distância dos seus entes queridos, são rusgas, e a ameaça à uma debilitada jovem denominada democracia, aqui do lado de baixo do equador.

O mar da história vez em quando sacode a vida das pessoas, e tende a desagregar os laços familiares, de parentesco e de amizade. Promove a busca por outros caminhos, incentiva a aventura por dias melhores em outros cantos que não a terra de origem. Navegar é preciso, diria o poeta.

Migrar, rebateria o outro. A Amazônia é um mundo de migração. Assim, como São Paulo, “a maior cidade nordestina fora do Nordeste”, como brinca Tom Zé.

Migrar é a busca por dias menos doridos. Migrar é busca por ar. Migrar é um dos maiores fenômenos dos nossos dias. Migrar é um ato pela vida. Um aquilombar em outro lugar.

Incremento dos modos de produção, avanço das tecnologias, as desigualdades sociais, crises econômicas e políticas, guerras, desastres naturais, falta de terras para cultivar e ausência de oportunidade de trabalho são alguns dos fatos motivadores do migrar.  

A migração tem tecido longo nas terras dos Carajás, no sudeste do Pará.  Raimundo Gomes, natural do Piauí, que hoje soma ano de vida faz parte deste ambiente.  Isidoro e Rosa, os pais baixaram nas terras do Pará para labutar em castanhais. A prole totaliza nove almas. É gente.....

Isidoro era chefe de barracão de castanhal no povoado denominado de Barreira Branca, de senhor conhecido por Dionor. Rosa fazia as atividades do lar e zelava pela educação dos “barrigudinhos”.  Quando Raimundinho somou 60 anos os pais ainda estavam neste plano, hoje não mais.  

Contradições é o mar da vida. Isidoro no comando da caderneta/contabilidade do barracão de oligarquias rurais, o filho comunista. Raimundinho é um educador na essência da palavra. A forjar trincheiras do educar. Educação na práxis do libertar.

Já dizia João Cabral de Melo Neto, “um galo sozinho não tece uma manhã”. E nas lidas da vida o educador somou com muitos pares. Criaram o Centro de Educação de Pesquisa, Assessoria Sindical e Popular (Cepasp) na década de 80. O espaço ganhou outros ares. Agora é uma comuna. A luta no campo e na cidade. Terra e moradia. Cidadania.


Diz a lenda que o ‘comandante”, - como os mais jovem tratam o educador -, desde miudinho era sabido. E, por isso foi enviado para escola em Marabá. Cantídia foi quem garantiu abrigo ao rebento alheio. No estranho mundo da migração as vezes ocorrem acolhidas.  

Pelo que contam Angelina e o Thiago, a primeira, companheira de Mundinho há mais de 40 anos, e o segundo,  rebento, Isidoro e Rosa puxaram a mula do castanhal e conseguiram montar um hotel na Av. Antônio Maia, o Hotel Santa Rita. 

Nestes tempos o agrônomo e cientista social migrou para Belém para cursar universidade. Em prosas sobre políticas e canções, o militante manifestou em várias ocasiões não morrer de amores pela capital. O motivo ao certo nunca compreendi.  Lá se defendia como era possível, até vender trecos no Ver o Peso.

O mercado é a mãe dos errantes. A república e a casa de estudantes a família dos migrantes. Assim foi a lida do pai de João e Thiago, vindos ao mundo na tumultuada década de 1980. Os meninos são os rebentos biológicos. Tem a Maria das Neves, adotiva, radicada em São Luís/MA.

Após a “faculdade” do Ver o Peso, aprovado em Agronomia, o “comandante” caiu em sala de aula da rede pública e cursinho a ministrar aula de matemática. Fazer as contas no organizar a luta no educar.

Nem só de trabalho vive o cabra. Nas férias Raimundinho adotava o bairro do Cabelo Seco como chamego ao lado dos parças Ademir Martins e do poeta e escritor Ademir Braz (Pagão), dentre outros ilustres devotos da luta, poesia e birita.  

Na brecha do tempo corria comunidades rurais ao lado dos manos/as de atividades do Movimento de Educação de Base (MEB). MEB, CPT e CEBs, a santa trindade de alinhamento na formação dos sindicatos combativos. Foram fundamentais nas pelejas.

Militar por direitos nestas plagas distantes sempre foi atividade de risco. Mundinho é testemunho de enterros a perder de vista. Contam os antigos que quando da morte José Cláudio e Maria, mortos há pouco tempo em Nova Ipixuna, a voz do comandante embargou no momento do discurso da despedida. A fronteira faz gente querida. Apesar da aridez.

Anos de 1970. Sombrios dias. Tempos de militarização da Amazônia. Dias da Guerrilha do Araguaia.

Em 1976, já com o “canudo” Raimundinho senta na praça em Marabá. Dona Rosa não nutria simpatia pela militância do filho. Por ironia, vários militares tinham no hotel dos pais de Raimundinho como morada. “O bagulho era doido”. Contraditório. Por conta do que ouvia dos militares, Rosa corria terço pela proteção do filho.

Acampamento em delegacia pela libertação do sindicalista de Eldorado, Arnaldo, morto na década de 90. 

Em tramas com parentes pintou uma chance legal de voltar à terra natal. A oportunidade era um trampo no INCRA. Em 1977 se alinha com a Angelina por conta de atividade no Projeto de Integrado de Colonização (PIC), na cidade de Elizeu Martins/PI, onde a companheira labutava.

O agrônomo era escalado para atividade David Caldas. O começo de tudo. Gelada, música e pá.  A labuta era mediada por contratos marcado por intervalos de desemprego.

O mar da história distancia. Aproxima. O mar da história arrebenta sobre a rocha a fazer outros desenhos, criar outros mapas, juntar outras letras e gramáticas.

Angelina puxou Juazeiro/BA, enquanto Raimundinho correu trecho para Marabá. Chão de dá em doido. Não havia zap. A carta acodia o recomeço. E, assim, assado, Angelina caiu na estrada a conhecer Marabá. 

A fronteira é madrasta e o comunista fez enlace na Igreja de São Francisco. Tinha até vela. Já faz quarenta e tantos anos. Chico curte bicho e a natureza, assim como Mundinho. 

O mar da história faz cada uma. Quem acreditaria que o comandante aventuraria Serra Pelada em busca de riqueza mágica? “Rodado” na década de 1980 o agrônomo encarou a peleja. Ganhou um troco, fez lambança pra burro, e comprou a casa onde mora até hoje.

Casa que sempre abriga outros errantes: gente de pé rachado da roça, brancos pobres, pesquisadores, e por aí vai.

Há sempre um armador para uma rede. Um prato de comida, uma dose de pinga, uma prosa amena. Outro dia a matutar ocorreu que o cafofo do Raimundinho tem a feição de um quilombo. Um território alternativo.

Esse dedo de prosa era somente para felicitar o educador, já tá a se estender em demasia, a transbordar maresias, a lembrar que “ o homem coletivo sente a necessidade de lutar”.


Fotos: arquivo da família. Texto feito a partir da deduração da Angelina e Thiago. 

sexta-feira, 31 de julho de 2020

Caso do professor Evandro Medeiros e a mineradora Vale: CPT e demais instituições analisam o processo

 A nota alerta sobre o processo de criminalização da luta popular por direitos 

Desde 2016 o professor Evandro Medeiros enfrenta uma batalha judicial contra a maior empresa de mineração do País e, pela segunda vez, foi absolvido pelo Poder Judiciário do Estado do Pará. As acusações feitas pela Vale ontra ele são referentes à suposta liderança da manifestação ocorrida no dia 20 de novembro de 2015, às margens da Estrada de Ferro Carajás, entre os bairros Araguaia e Nossa Senhora Aparecida, respectivamente conhecidos como “Fanta” e “Coca-cola”, no Município de Marabá/PA. O ato público realizado por professores e alunos da Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (UNIFESSPA) contou com a participação da população local e teve como objetivo prestar solidariedade às famílias de um bairro de Marabá, impactadas pela obra de duplicação da Ferrovia de Carajás e, também, às comunidades impactadas pela Vale em Mariana/MG, onde ocorreu o rompimento da Barragem de Fundão no dia 05 de novembro de 2015. Leia a íntegra AQUI


quinta-feira, 30 de julho de 2020

O simbolismo da vitória do professor Evandro Medeiros contra a mineradora Vale


"A vitória representa força dos movimentos sociais. A vitória também  é da universidade. É de todos nós" defende o professor.

Ver a imagem de origem
Prof, Evandro Medeiros. Foto de redes sociais. 

Manhã do dia 26 do corrente mês entra para a história do campo popular como o dia em que o professor venceu a mineradora Vale. Foi o dia em que a juíza Renata Guerreiro Milhomem de Souza, juíza da 1ª Vara Criminal da Comarca de Marabá, anunciou como improcedente as acusações da Vale contra o professor Evandro Medeiros (Unifesspa), do quadro do Programa de Educação do Campo, com sede no campus I.

A Vale acusou o educador de obstruir a ferrovia de Carajás, que liga as minas da empresa em Carajás aos portos em São Luís, no Maranhão. Em novembro de 2015 Medeiros era uma entre as quase 30 pessoas que integraram uma manifestação na periferia de Marabá, no sudeste do Pará.

O ato foi em solidariedade às famílias afetadas pelo crime ambiental da Vale em Mariana/MG.

A juíza Milhomem em sua sentença destaca que: “ A materialidade e autoria delitiva não restaram comprovadas. Isso porque, no dia dos fatos, ficou tão somente comprovado que o acusado, falando em um megafone, chamava a população para participar da manifestação”.

“[...] verifico que o acusado, longe de incitar a prática de qualquer crime, buscou, na realidade, expor, juntamente com os demais manifestantes, de maneira organizada e pacífica, apoiados no princípio constitucional do pluralismo político (fundamento estruturante do Estado democrático de direito), suas ideias, visões, concepções e críticas à atuação econômica e social da empresa Vale S.A, participando, como organizador ou não, desse evento social, amparado pelo exercício concreto dos direitos fundamentais de reunião, de livre manifestação do pensamento e de petição” destaca a juíza sobre o livre

A juíza Milhomem assentou a sua sentença nos princípios da defesa das ideias e da liberdade de expressão e de organização, onde argumenta que: “Com bem salientado pelo Eminente Ministro Celso de Melo no julgamento da ADPF n. 187: (...) a liberdade de expressão, considerada em seu mais abrangente significado, traduz, ela própria, o fundamento que nos permite formular idéias e transmiti-las com o intuito de provocar a reflexão em torno de temas que podem revelar-se impregnados de elevado interesse social. As idéias, (...), podem ser fecundas, libertadoras, subversivas ou transformadoras, provocando mudanças, superando imobilismos e rompendo paradigmas até então estabelecidos nas formações sociais. Leia a íntegra da sentença

O caso do professor não é o único que a Vale judicializou. No corredor de Carajás, como alertou uma matéria da Agência Pública, o total de pessoas processadas pela mineradora ultrapassa a casa de cem.

O educador conta que o processo de cinco de anos abalou toda a família. Impactou a mãe do professor, que temia que ele poderia sofrer algum atentado por conta da sua atuação política. Abalou os filhos pelas coisas que ouviam na escola, que o pai seria preso. Por cinco anos as crianças viveram esse drama. Notícias sobre o caso na imprensa, idas na delegacia para depoimentos.

Afetou a própria saúde do professor no percurso processual descobriu que tem hipertensão. “O ato de solidariedade ser tratado como crime, o Ministério Público ter aceitado a acusação da Vale, isso tudo provocou em nós um profundo sentimento de indignação e ao mesmo tempo de impotência. Isso tudo abala a gente de forma emocional e profissional” reflete Medeiros.

Para o professor a vitória se dá em vários planos. A pessoal, por conta em poder ter o mínimo de sossego familiar, sem o temor de ser preso e profissional. E o de caráter coletivo do conjunto de movimentos sociais que reivindicam em todos os locais onde a Vale opera respeito aos seus territórios e seus modos e vida, avalia o professor.

Medeiros reforça ainda que é uma vitória da universidade, por conta do empenho da mesma em fomentar pesquisa e projetos de extensão junto aos segmentos historicamente marginalizados da sociedade.

“ Hoje existe um clima em tentar promover o silenciamento de discentes, docentes e técnicos alinhados a estes segmentos. A vitória é simbólica também neste sentido, em valorizar o conhecimento que emancipa. Temos uma vitória que representa a todos”, acredita o educador.

 Números da Vale. AQUI

segunda-feira, 27 de julho de 2020

Vale - professor vence processo contra a mineradora



Evandro Medeiros, professor da UNIFESSPA vence processo contra a mineradora Vale. Ele foi acusado em obstruir a linha férrea da empresa em ato de solidariedade às famílias atingidas pelo crime da Vale em Mariana/MG, em 2015. 

A sentença acaba de sair. A assessoria jurídica do educador, realizada pelo advogado José Batista Afonso, da Comissão Pastora da Terra (CPT) de Marabá/PA  deve emitir uma nota em instantes. Saiba mais  sobre o caso AQUI

Leia entrevista do professor concedida ao blog AQUI

Leia a sentença AQUI

sábado, 25 de julho de 2020

85 anos de Manoel da Conceição, o lavrador de utopias



Manoel Conceição - Foto|: Marcelo Cruz 

Oeste do Maranhão, dedo de prosa no Centro de Formação do Trabalhador Rural (Central), oeste maranhense, cidade de João Lisboa. Lisboa foi grande jornalista, historiador e político, filho de Pirapemas, juntinho de São Luís.

O oeste do estado é conhecida como Pré Amazônia maranhense, na ilharga entre a Amazônia e Cerrado. onde Balsas, já ao sul do estado, puxa Floriano, no Piauí. Balsas representa um polo de soja. O projeto atual é a expansão do monocultivo no Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, ideia materializada no projeto MATOPIBA.

A soja dominada por migrantes do Sul detonou com o cerrado. É no Cerrado que os rios proliferam. A soja, ladeada por outros projetos expropriou camponeses, alimentou a gusa com carvão, que desenvolveu o trabalho escravo, que turbinou a riqueza em outras paragens, que alimentou o capital e semeou a fome.

A soja se instalou na região anos 1980. Neste período o território da região experimentou uma abissal reconfiguração por conta da instalação de grandes projetos (teerritorialilzação do capital)  baseados em polos de desenvolvimento, além da soja, polo de gusa e a cultura de eucalipto dominaram o ambiente.

Aqui Manoel da Conceição sentou na praça após ter corrido meio mundo. E, correu mesmo. Valendo!. No dia 24, no derradeiro sábado, o semeador de ideias, barricadas em defesa dos trabalhadores e das trabalhadoras em diferentes frentes: sindical, ambiental, educação e sonhos somou 85 anos. A saúde não é das melhores. Mas, para quem encarou prisões, atentados, tortura e o exílio, o combatente segue de pé.

Fim dos anos de 1990 e início dos anos 2000 passei a ter contato com o educador popular inspirado na letra da luta de classes por conta de atividades da rede Fórum Carajás, no Centro de Educação e Cultura do Trabalhador Rural (Centru). Iniciava-se a minha salvação como ser humano. 

Certa vez, num intervalo de reunião, regado a dois dedos de prosa e pinga, estava eu macambuzio. Mané indagou o motivo da amofinação, dei um despiste, acho. Ele retrucou: “Fique assim não. Você ainda é jovem. Ainda vai morrer várias vezes antes da vida findar. Vais morrer de mal de amor. Morrer de decepção de “amigos”, morrer de desencantamento com companheiros e políticos. Morrer de mil coisas. ”   Nunca esqueci da prosa.

No recente livro de memória lançado pelo igualmente combatente camponês Luiz Vila Nova, é recorrente a referência ao educador popular Manoel da Conceição, como estrategista sagaz na luta pela terra, Ouvi umas prosas dessas de táticas de guerrilha. Vila enxerga na prosa e na canção elementos poderosos de formação. É dele o verso que reza: "O risco que corre o pau corre o machado. Não temos o que temer. Aquele que mata, também pode morrer". 

No dia do natalício de Mané, na véspera do Dia do Trabalhador Rural, o MST fez uma ciranda remota em loa ao mestre. Falou peão de trecho, falou companheiros de batalha da luta sindical, falaram filhos, a esposa, a neta recitou poema. Falou gente de paletó e pé rachado da roça, dirigente sindical e educador. Falou João Pedro do MST, inté o governador.

Manezinho, o filho educador, assim o resumiu: “Mané é isso, coletividade e luta, Mestre da esperança, um educador popular, um mestre da vida. A luta contra todas as formas de opressão, dos trabalhadores e trabalhadoras rurais, de negros e mulheres, de toda forma de   adversidade. O que nós estamos fazendo hoje, agora, é uma poesia coletiva. Mané é um semeador. “

Veja a live AQUI

Quando Mané somou 40 anos de luta, o IBASE publicou uma reportagem sobre o maranhense que foi um dos fundadores do PT nacional, da CUT, do Centru, Cetral, etc...Leia AQUI

segunda-feira, 20 de julho de 2020

95 anos de Clóvis Moura, pensador negro e nordestino que refletiu sobre a quilombagem

Clovis Moura principiou seus estudos militantes acerca da questão da resistência negra e escravista no Brasil na década de 1940, redigindo aos 34 anos “Rebeliões na Senzala”, obra que se tornaria um clássico da historiografia e análise sociológica marxista brasileira. Esta é a primeira de suas grandes obras, publicada em 1959, e declara guerra contra toda a interpretação simplista, rasteira e racista sobre a forma como os negros e negras enfrentaram o sistema de dominação escravista. O livro é o extremo oposto das teses contidas em “Casa Grande e Senzala” e, por sua profundidade crítica e analítica, encontrou grande resistência das organizações de esquerda e inclusive dentro do PCB na época e na chamada “Sociologia oficial” difundida pela academia. Considerado um autor importante para estudo das relações raciais no Brasil nos EUA, também foi traduzido em vários outros idiomas, tendo grande repercussão inclusive na China. Leia artigo completo AQUI

domingo, 19 de julho de 2020

Pará lidera mortes de quilombolas no país.


Organizações quilombolas e Ufopa monitoram a situação da pandemia em comunidades no estado



Até o dia 19, domingo, o Pará contabilizava 38 óbitos de quilombolas, 1495 casos confirmados, 1108 casos suspeitos, 969 casos recuperados e 02 pessoas internadas. O estado lidera os casos no Brasil, que soma 137.  

Os números constam no boletim  produzido pela Malungu (Coordenação Estadual das Associações das Comunidades Remanescentes de Quilombo do Pará) e a Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), a partir do Núcleo de extensão Sacaca, coordenado pela professora Luciana Carvalho, do curso de Antropologia.  

A coleta dos números é ativada a partir de uma rede mobilizada junto às lideranças comunitárias. Os dados podem ser bem maiores, esclarece a coordenação da iniciativa. O poder público não tem realizado ações e monitoramento com relação às populações indígenas, quilombolas e similares. Nem mesmo monitorar. 

O Pará tem aproximadamente 550 comunidades quilombolas, distribuídas em 65 municípios, com uma população estimada em 400 mil pessoas. Em todo o Brasil calcula-se em 5 mil comunidades de remanescentes de quilombos.

O quadro pode se agravar por conta dos vetos do governo federal ao socorro emergencial a indígenas e quilombolas. Acesso á agua, álcool gel, cesta básica, saúde, materiais de higiene, cesta básica  foram alguns dos pontos vetados pelo  do governo Bolsonaro no dia 08 de julho ao PL 1142/2020.

O projeto foi  construído a partir das representações politicas de indigenas e quilombolas em dialogo com os parlamentares Rosa Neide (PT/MT), Joênia Wapichana (Rede/RR) e  Rondolfo Rodrigues (Rede/AP). 

“A medida expressa  o que representa este governo para nós quilombolas. Um governo de morte. Uma ação de aquinilação do nosso povo”, reflete Valéria Carneiro, quilombola do município de Salvaterra, no Marajó, no estado do Pará, durante live que debateu a vulnerabilidade das comunidades quilombolas no estado. O evento remoto ocorreu na última sexta feira, dia 17.

O debate  é uma iniciativa da Malungu e do Núcleo Sacaca, que contou com a reflexão da professora Zélia Amador, emérita professora da UFPA, e uma referência nacional no combate ao racismo. Para a educadora a condição de vulnerabilidade e de empobrecimento das comunidades quilombolas resulta de uma construção econômica, política e social ancorada no racismo. Uma negação da vida.

O racismo, nos tira as oportunidades de vida digna, escolaridade, saúde e de uma cidadania plena. O racismo se estabeleceu com o colonizador. Foi a colonização que decidia quem era humano e quem não era. Desde sempre a nossa luta é cotidiana na afirmação na nossa humanidade. Desde a diáspora fomos transformados em mercadoria e em máquina. Não éramos pessoas.  A nossa luta é antirracista.  Todo dia”, interpreta Amador.

Sobre o Pará liderar os casos, ela avalia que os quilombolas não possuem condições materiais em se guardar. Muitas das vezes são obrigados a se deslocarem em busca de serviços nas sedes dos municípios. “O racismo é uma mazela que mata. Em pleno século XXI ainda lutamos para conquistar a nossa humanidade”, arremata.

Em plena contemporaneidade as comunidades quilombolas buscam ter acesso a água potável, serviço de saúde, as suas terras reconhecidas, educação, adequada à nossa realidade,  condições para a produção, alerta a quilombola Gilvania Silva, doutoranda da Unb e integrante da coordenação da Conaq (Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas).

“Nenhum órgão de estado monitora as nossas situações de vulnerabilidade. Isso resulta de um racismo estrutural. Vivemos num governo de morte. Um governo genocida. Isso foi declarado logo no início do governo. Ele anunciou que não reconheceria terras de quilombos e indígenas. Esvaziou as instituições, cortou orçamento, cancelou concursos, nomeou pessoas sem compromisso e capacidade técnica para tratar das nossas demandas” avalia Silva.

Ao avaliar a situação de vulnerabilidade das comunidades quilombolas no Pará , José Galiza,  representante da Conaq no estado, calcula que a situação de empobrecimento, a localização, muitas das vezes de difícil acesso, a necessidade em buscar renda para além dos limites territoriais são elementos que favorecem a circulação do vírus.

Galiza acredita que pelo fato de algumas comunidades possuírem um grande apelo turístico, por conta dos recursos naturais com igarapés, rios e florestas, isso também colaborou para o aumento da pandemia nas comunidades.

‘Já estávamos a margem mesmo antes da pandemia. A crise só piorou tudo. Já éramos empobrecidos, com a pandemia, a pouca renda diminuiu ainda mais. Precisamos unir forças. Necessitamos de apoio de todos no combate do racismo”, encerra o quilombola do município de Acará.

Veridiana Nascimento, professora da Universidade Federal do Amapá (Unifap), enfermeira e voluntária no projeto, que pesquisou comunidades quilombolas na região do Trombetas, no Baixo Amazonas, avalia com preocupação o registro de 27 casos por dia de confirmação do vírus.

Para a pesquisadora o quadro de vulnerabilidade é um desdobramento de ausência de políticas públicas para as comunidades, que resulta em não instalação de unidades de saúde ou a prestação de serviço de um agente comunitário, sequer. “ Há locais que, assim como muitas favelas do país, não contam nem com água potável. Como ter medidas de prevenção de higiene e prevenção? ”, indaga Nascimento.

A live pode ser acessada AQUI

Debates territoriais: obra de grupo de pesquisa da UFOPA reflete sobre dinâmicas do Baixo Amazonas

A publicação reúne pesquisas oriundas de monografias de graduação e artigos de docentes e discentes da Ufopa, além de convidados externos, que trazem análises de políticas agrárias, agrícolas, aquícolas, educacionais, logísticas e ambientais e seus impactos no ordenamento territorial na região do Oeste paraense. Segundo o Censo Demográfico do IBGE (2010), a região abrange cerca de 500 mil km2, com uma população de mais de 800 mil habitantes. É um território dividido em duas porções: o Baixo Amazonas, localizado ao norte e de ocupação mais antiga; e o Tapajós, composto pelos eixos da Transamazônica e da BR-163. Baixe  o LIVRO

Vulnerabilidade Quilombola no PA: Ufopa, a partir do projeto Sacaca e comunidades debatem o tema

O pará lidera casos de Covid em comunidades quilombolas no país. 

O projeto de extensão “Sacaca e Malungu na luta contra o coronavírus nos territórios quilombolas do Pará” inicia o Ciclo de Debates “Vulnerabilidade histórica e futuro das comunidades quilombolas do Pará pós-pandemia”. A programação inicia-se nesta sexta-feira, 17h, com a mesa-redonda “Por que o Pará é "campeão" de casos de Covid-19 em comunidades quilombolas no Brasil?” no canal do Sacaca no Youtube. Leia mais AQUI

segunda-feira, 6 de julho de 2020

Nada segura o trem da Vale, nem a pandemia


Ação de quilombolas do Maranhão contra a duplicação da Ferrovia/ Justiça nos Trilhos

O ranger do peso dos vagões sobre os trilhos é ouvido em quase toda a cidade de Marabá, sudeste paraense. O maior trem do mundo não cessa. Todos os dias, durante o dia todo os ruídos lembram do saque.

O trem carrega minério de ferro de melhor teor do mundo da Serra de Carajás, até São Luís, no Maranhão, de onde ganha o mercado asiático.  Faz mais de 30 anos.  

Tantos são os navios de grande porte, que as praias de São Luís lembram uma pintura de tempos coloniais, com a esquadra de naus a espreitar a cidadela.  A ferrovia que foi duplicada, tem perto de mil de quilômetros.

Carajás abriga umas 4 bilhões de toneladas de minérios. A estimativa era que o minério duraria uns quatro séculos. O mercado, as tecnologias de exploração reduziram para menos de cem anos.

O maior trem do mundo mede 3,3 quilômetros extensão, possui 330 vagões, puxados por quatro locomotivas, que varam perto de 30 cidades dos dois estados, e perto de 100 comunidades.

O site da firma informa que por ano transporta 120 milhões de toneladas. Cada vagão tem a capacidade de 104 toneladas. Para viabilizar o transporte a firma possui 10.7656 vagões e 217 locomotivas. 

Em 2011 foram necessário cinco rebocadores mobilizados de todo o país para atracar o Vale Brasil, navio com capacidade de carregar 400 mil toneladas de ferro rumo à China. 

Os portos de Roterdã e o de São Luís são os com capacidade de receber os navios de grande envergadura por conta da oscilação da maré.  A baía de São Marcos, em São Luís, desde séculos imemoriais afunda navios. 

Mesmo nos dias de hoje os acidentes persistem, e  tendem a provocar problemas ambientais por conta de vazamentos de óleo e minério. Em fevereiro deste ano a Marinha afundou o Stellar Banner, navio com capacidade de quase 300 mil toneladas da empresa sul-coreana Pollaris Shipping a serviço da Vale. 

E o trem danou-se naquelas brenhas do Pará e do Maranhão. Estados iguais em desgraça, onde  o barulho, a poeira, as casas rachadas, as mortes de pessoas e de animais não integram os cálculos contábeis da mineradora Vale.

Há uns quatro anos ela investiu 60 bilhões de reais para viabilizar a exploração da Serra Sul (S11D), localizada em Canaã dos Carajás.  O projeto é o mais expressivo no portfólio da mineradora que feriu de morte Mariana e Brumadinho, e nocauteou Itabira de Drummond.

Especialistas advertem que a estimativa de lucro para o último trimestre do ano é de U$$ 3 bilhões de dólares. No fim do ano passado ela anunciou a distribuição de U$$ 7,25 bilhões a seus acionistas.

Mais que o dobro que pagou em possíveis compensações às famílias impactadas pelos crimes ambientais em Minas Gerais. Por conta dos crimes, o conselho administrativo da firma havia colocado em suspensão a remuneração dos acionistas.

Os valores sempre estratosféricos do mercado aprofundam a condição colonial da região como exportador de produto primário.

Nesta peleja de Davi contra Golias, os coletivos Justiça nos Trilhos e Atingidos pela Vale atuam em rede no sentido em visibilizar os abusos da mineradora.  

A gênese do projeto consta nos anais da historia da ditadura civil-militar.. A política desenvolvimentista do regime representa um divisor de água na lógica do saque sobre a região. Ele ergueu institucionalidades, possibilitou políticas de crédito, promoveu a expropriação de comunidades indígenas, quilombolas e camponesas. E, continua na mesma toada. 

Por cá, vidas não importam.

A Vale é um estado dentro do estado do Pará. O minério de ferro representa o principal produto da balança comercial do estado, perto de 90%.

A região de Carajás da Vale não se coaduna com o universo da sociedade local, que coleciona os principais indicadores em desmatamento, morte de camponeses, trabalho escravo, péssimos números em educação, saneamento e por aí vai.

Nada cessa o trem da Vale. Crimes ambientais, indignação ou pandemia.   

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Tiros de canhão contra a pandemia


Belém antiga. Imagem da internet. 

Lá pelos idos de 1850, pós Cabanagem, poucos anos depois do lançamento do Manifesto Comunista, a cidade de Belém, naquela época denominada de Pará pelos visitantes de além riomar, era acometida por surtos epidêmicos de febre amarela e de varíola.  O porto teria sido o canal de viabilidade das chagas.  

A febre amarela precipitava sobre brancos e mamelucos, enquanto a varíola acometia índios, negros e mestiços. Iniciadas em abril, em plena estação chuvosa, as pestes duraram uns seis meses.

No portfólio de ações sanitárias do governo da época no combate das pragas, uma se destacava, disparar tiros de canhão no afã de purificar o ar, nos conta Bates.

O naturalista, que a partir de Liverpool – renomado porto de tráfico negreiro- aportou em searas Amazônicas, ao lado de Wallace, igualmente cientista,  percorreram o rio Amazonas por demorados anos. As informações acima constam em Um Naturalista no Rio Amazonas.

A obra além de relatar as exuberâncias da floresta tropical, externaliza toda ordem de leitura preconceituosa contra os povos ancestrais, por ele tratadas de indolentes, bárbaros, selvagens e congêneres. Mesma tratativa recebe a insurreição Cabanagem.

quarta-feira, 1 de julho de 2020

2020, o São João mais triste


Foto: Bumba meu Boi de Maracanã. fonte: facebook do Batalhão de Ouro

No São João mais amofinado que o mundo já viu, acomodei ao alforje uma fieira de estrelas para modo de enfeitar a cumeeira do teu viver

No São João mais triste que o mundo já viu, nada de fogueira, arraiá de bandeiras, guarnicê ou brincadeiras

Nada de coco, coqueiro, Boi de Leonardo, Maracanã, Maioba, Ribamar, Coxinho, cacuriá...

No São João desprovido de matracas, pandeiros, o onça se perdeu no buraco fundo, aonde o vento faz a curva, na grota do Japão sem liberdade

No São João da ilha em baixo astral

Até a face da lua ficou caiada por gotas do banzo de África

No riomar de solidão

Melhor sair de fininho

Miudinho

Apito calado  

Ajuntar os versos noutro lugar

Águas em outro ribeirão

sábado, 20 de junho de 2020

Luta pela terra no Pará: tese recupera trajetória de ativistas mortos na década de 1980

Gringo, Benezinho ativistas sindicais e o advogado Paulo Fonteles são os casos tratados 



Professor Elias Sacramento. Fonte: foto da internet/site UFPA. 

Os anos da década de 1980 são os mais sangrentos na luta pela terra no estado do Pará. Trata-se do período da inserção econômica subordinada da Amazônia a outros centros mais desenvolvidos. A conjuntura era marcada pela apropriação do estado pelo grande capital.

A ordem do dia residia na instalação de grandes projetos marcados pela concentração de capital, sob o primado das rodovias da geopolítica da ditadura civil-militar de integração física. Tudo sob os auspícios da doutrina de segurança nacional de Golbery do Couto e Silva.

Uma toada regida pela expropriação dos povos da floresta de forma sistemática. Exploração da madeira, imposição da pecuária extensiva e mineração foram alguns dos polos econômicos eleitos como prioritários para alavancar o “desenvolvimento”. 

O estado autoritário impôs o terror aos moradores nativos e migrantes. Prisões, tortura, execuções e chacinas de seus opositores são ações que até os dias de hoje não foram reparadas.

Camponeses e seus aliados eram os eleitos como atravancadores do “progresso”, e assim como a floresta, deveriam ser eliminados. Nos anos de 1980 a ala mais reacionária dos fazendeiros edificou a União Democrática Ruralista (UDR), o braço armado do setor. Soma-se ao cenário da época, o espectro da Guerrilha do Araguaia, e a ameaça “comunista” na região.  

O major Curió é personagem central na definição de estratégias de repressão ao movimento sindical do campo naquele momento. A execução de Gringo tem relação com a eleição sindical em Conceição do Araguaia, onde ele era candidato a presidente.  

A tese de Elias Sacramento, apresentada no Departamento de História da UFPA, no dia, 17 do corrente mês, sob o título “É muito triste não conhecer o pai. A herança da violência e os familiares de Gringo, Benezinho e Paulo Fonteles” recupera fragmentos destes dias sangrentos do estado do Pará.

O professor e pesquisador também teve o pai assassinado durante a ditadura civil militar.  Sobre o pai, Sacramento dedicou a sua dissertação no mesmo departamento da UFPA, com o título Almas da Terra: a violência no campo paraense, apresentada em 2007. A dissertação e a tese contam com a orientação da professora Edilza Fontes.

Na tese o professor ilumina fatos de três casos de assassinatos de lideranças ligadas à luta pela terra no estado.  Dois casos dedicados a ativistas sindicais e sobre o advogado Paulo Fonteles, um dos fundadores da Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos (SPDDH), assassinado em 1987.

O número 01 do Jornal Pessoal, editado pelo jornalista Lúcio Flávio Pinto é dedicado à apuração do caso. A reportagem foi laureada com o   o Prêmio Fenaj de Jornalismo daquele ano. Leia AQUI  

Empresários do grupo Jonasa e Belauto eram tidos como suspeitos. Por isso o grupo Maiorana, responsável pela edição jornal do Liberal, não publicou a reportagem, o que provocou a criação do quinzenário do jornalista. Igualmente objeto de trabalhos de pós graduação.

Assim como Alex Lima, Elias disserta sobre a trajetória do agente pastoral da Comissão Pastoral da Terra (CPT), em Conceição do Araguaia, Raimundo Ferreira Lima, conhecido por "Gringo". Leia matéria AQUI

Alex, filho do agente, apresentou a dissertação faz pouco dias, na Unifesspa. Filhos de gringo são professores ou ativistas sindicais, a exemplo da filha Nedyma Lima, que lidera o sindicato da educação em São Geraldo do Araguaia. 

Outro caso analisado por Elias é o assassinato do dirigente sindical Benedito Alves Bandeira, conhecido por "Benezinho", morto em 1984 e que teve sua atuação no município de Tomé-Açú e Acará.  Na ocasião a PM conseguiu prender os três pistoleiros. Revoltada com o caso, a população fez justiçamento contra eles. Sete filhos do sindicalista ficaram na orfandade. Veja documentário AQUI

No processo da pesquisa, Elias enfrentou certa resistência dos herdeiros, até eles conhecerem parte da trajetória do professor. 

Sacramento além de recuperar o enredo dos crimes envolvendo os ativistas pela reforma agrária, indagou sobre o destino dos filhos, como a família encarou o legado de luta, se houve reparo por parte do Estado e sobre os traumas provocados pelas  violências.

Integraram a banca examinadora os professores Francivaldo Alves Nunes(UFPA), Airton dos Reis Pereira (UEPA/Marabá) e Raimundo Amilson de Sousa Pinheiro (UEPA).